Austrália denuncia "problema significativo de governação" em Timor-Leste

26.05.2006 - 14:54 Por Lusa
O primeiro-ministro australiano, John Howard, apontou hoje a existência de "um problema significativo de governação" em Timor-Leste, afirmando que os confrontos dos últimos dias são "uma lição" para os responsáveis eleitos.
"Não vale a pena andarmos a enganar-nos. O país não tem sido bem governado e espero que a experiência para os que estão em cargos eleitos, de terem a necessidade de pedir ajuda ao exterior, induza um comportamento apropriado no país", prosseguiu Howard em declarações à rádio australiana ABC.
O primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, em declarações à Lusa, garantiu hoje a unidade do Governo e voltou a insistir nas suas competências em matéria de segurança, repetindo a tese de que há "uma coordenação" entre o Governo e a Presidência da República na gestão da crise.
No entanto, a mulher de Xanana Gusmão, a australiana Kirsty Sword, garante que o Presidente sente que o Governo de Mari Alkatiri "é claramente incapaz de controlar a situação". Por isso assumiu o controlo da segurança e a coordenação com as forças internacionais em Timor-Leste, afirmou a mulher do Presidente timorense em entrevista à rádio australiana ABC.
"Penso que Xanana sente que, claramente, o Governo é incapaz de controlar a situação. Não é claro quem é que está a comandar as Forças Armadas, que parecem estar agora a alvejar as famílias de agentes da polícia em Díli", disse Kirsty Sword à ABC.
"Depois do grave surto de violência de ontem (...), Xanana deixou bem claro que assumiu o comando das forças internacionais que chegaram ontem. Reunimo-nos com o general Ken Gillespie e com representantes do Governo australiano e do Governo neozelandês", acrescentou.
Nesse encontro, segundo a mulher do Presidente timorense, Xanana Gusmão "fez um ponto da situação, disse que ficou chocado com o fracasso do Governo e deixou bem claro que assumiu o controlo das forças de defesa".
Sobre a posição do primeiro-ministro timorense, Mário Alkatiri, que se recusa a reconhecer a autoridade exclusiva de Xanana Gusmão sobre as forças de segurança, Kirsty Sword levantou mesmo a hipótese de alterações ao nível da governação: "Penso que vamos assistir a mudanças significativas. Acho que o Governo perdeu a confiança da população".
Alkatiri garante que a situação está controlada
Nas declarações à Lusa, Mari Alkatiri contradisse a alegada autonomia e autoridade das tropas australianas no terreno, declarando que a segurança de Timor-Leste é da responsabilidade do Governo e que as forças timorenses actuam "em coordenação" com as internacionais, no âmbito das "regras de actuação" definidas nos acordos assinados.
"A segurança interna é da responsabilidade do Governo. Neste momento temos forças internacionais a ajudar na segurança interna", referiu.
"O comando das forças internacionais não está nas mãos nem do Governo nem de nenhuma instituição timorense, mas há coordenação entre o comando das forças institucionais e das F-FDTL e coordenação política feita pelo Governo", sublinhou Alkatiri.
Ramos Horta diz que quem comanda são os australianos
A posição de Mari Alkatiri sobre o papel das F-FDTL contradiz a do ministro dos Negócios Estrangeiros, José Ramos Horta, que hoje afirmou a uma rádio neozelandesa que as forças australianas tomariam posição nos principais locais da cidade, confinando os militares rebeldes e os soldados das forças governamentais aos quartéis de Baucau e Metinaro.
"As Forças Armadas timorenses concordaram em retirar completamente da cidade, para a zona leste da capital, onde está o seu quartel", referiu Ramos Horta.
"Quaisquer outros elementos armados serão conduzidos para acantonamentos controlados pela força australiana", concluiu.
Entretanto, o responsável da Força Aérea australiana, Angus Houston, disse hoje que o Governo timorense ordenou aos soldados da F-FDTL que regressassem aos quartéis, entregando a responsabilidade da segurança aos australianos e ordenando os rebeldes a entregarem as armas.

