Asif quer voltar à casa que vendeu para fugir de Caxemira

20.09.2011 - 12:50 Por Isabel Gorjão Santos
Pensava que o estavam a levar para os Estados Unidos até descobrir que tinha atracado na Guiné-Conacri. Pediu asilo a Portugal sem saber o que a palavra asilo queria dizer, e foi em Português que aprendeu a escrever. Sonha voltar um dia à casa que vendeu em troca da fuga, mas só quando Caxemira estiver em paz.
A luz do meio-dia encandeia Lisboa, é Agosto e estamos na altura do Ramadão. Asif, “só Asif, que é um nome comum”, é muçulmano, está a cumprir o jejum e dispensa os cafés. Quer um sítio com árvores, por isso é num banco de jardim debaixo de um jacarandá que conta a sua história. Talvez estas árvores lhe lembrem as macieiras que tinha plantadas em frente à sua casa na aldeia de Lali, na Caxemira sob controlo da Índia. Falta-lhe o cheiro da sua montanha, um cheiro que se torna mais intenso quando a neve derrete e destapa as árvores.
Era em frente a essa montanha que Asif estava no dia em que a sua vida mudou, o dia que acabou por trazê-lo a Portugal. Tinha levado para o campo as suas ovelhas e cabras, estava a vê-las pastar quando dois homens se aproximaram. Não os conhecia, nunca soube quem eram, mas lembra-se bem do que lhe vieram dizer.
Um dos homens aproximou-se, outro ficou a vigiar o local. Não demoraram muito tempo, não mais do que o necessário para lhe contar como tinha morrido o seu pai. Foi numa explosão causada por militares indianos, disseram-me. O pai e todas as outras pessoas que estavam com ele.
Asif teria pouco mais do que 20 anos, não se lembra bem. Desde então o tempo correu tão depressa e tão devagar. Já tinham passado alguns invernos após a morte do pai, tinha ele “13 ou 14 anos”, mas aquela conversa sobressaltou-o. Até ali, estava convencido de que morrera num incêndio na padaria onde trabalhava numa vila próxima, em Pakhwan.
O pai de Asif era padeiro e a história do incêndio até parecia plausível. Ali cozia-se pão a lenha, até poderia ter acontecido um acidente. Mas não. Diziam-lhe agora que não tinha sido um acidente. “As pessoas contavam-me que tinha sido um incêndio, ninguém me deixou ver o cadáver.”
A conversa com os dois homens perturbou-o, por isso foi contá-la à mãe. Ela zangou-se. “Mas por que é que te foste encontrar com aqueles homens?” Ele explicou-lhe que não os tinha procurado, que estava a ver os animais a pastar, mas ela avisou-o para não contar aquela história a ninguém, tentou convencê-lo de que era mentira e proibiu-o de sair de casa durante vários dias.
“És filho único, o nome da nossa família vai continuar contigo. Não tens de pensar nas lutas pela independência de Caxemira, tens de dar continuidade ao nome do teu pai.” Dizia-lhe isto e chorava. “Chorava muito.”
Então foi isso, pensou Asif. A morte do pai estava relacionada com o conflito em Caxemira que, entre tréguas e confrontos, opõe a Índia ao Paquistão desde 1947. Ele nada sabia de política, nunca tinha ido à escola, nunca lhe falaram disso. Só mais tarde percebeu que os militares tinham suspeitado de que na padaria do pai eram acolhidos rebeldes separatistas que defendem a independência do território. E talvez fossem. “À noite, se alguém entra num prédio, o que é que se pode fazer?”
Asif também não sabe se o pai algum dia apoiou os rebeldes. Os seus olhos negros cristalizam quando fala do que aconteceu, a voz serena sobe de tom. Admite que pensou muito no assunto e que até pensou juntar-se aos rebeldes. Hoje, que os jornais e a Internet já lhe contaram mais sobre o sítio onde cresceu, acha que o melhor futuro para Caxemira seria a independência. “Devia ser independente, não quero que mais nenhum pai seja assassinado.”
A mãe acabou por travar a sua revolta. Adoeceu, ele teve de cuidar dela, não havia mais ninguém para o fazer. Mas o que lhe tinham contado chegou para ver os seus passos controlados e vigiados. “Em Caxemira, os militares sabem que quando matam a família de alguém os filhos podem ter desejo de vingança. Por isso vigiavam-me especialmente a mim, que era a única pessoa naquela aldeia que tinha sido magoada pelos militares.” O mais provável, pensou, era que um dia o viessem buscar, por isso decidiu seguir a intuição e o desejo da mãe: fugir.


