Tal como sucedera após a destruição causada pelo furacão Katrina, os artistas de Nova Orleães foram dos primeiros a reagir ao desastre ecológico provocado pela explosão de uma plataforma da British Petroleum (BP) no Golfo do México, em Abril passado. Dan Cameron, director da bienal de arte contemporânea Prospect New Orleans, enviou uma carta aberta à imprensa, sublinhando o papel crucial que os artistas da cidade desempenharam após o derrame, avançando como voluntários de primeira hora, apoiando associações que advogam uma economia sustentável na região, ou documentando a crise à medida que ela progredia.
Muitos deles incorporaram nas suas próprias obras a devastação provocada pelo crude, como o fez Brian Borrello num conjunto de trabalhos em que usou crude recolhido na costa da Louisiana e nas praias da Florida para representar o skyline de Nova Orleães. A série foi vendida para financiar o auxílio psiquiátrico às comunidades piscatórias mais directamente afectadas pelo derrame. Outro artista local, Dan Teague, criou uma paródia ao girassol verde do logótipo da BP usando elementos de uma nota de dólar a boiar num charco de petróleo.
Dan Cameron compara o acidente no poço da BP, que despejou no mar mais de cem milhões de litros de petróleo, às consequências do furacão de 2005, afirmando que “foi como o Katrina, mas em câmara lenta”. Um mês após a explosão, que matou 11 pessoas, o crude tinha já afectado a costa do estado da Louisiana numa extensão de cerca de uma centena de quilómetros. Lembrando que, ainda antes do desastre, os artistas de Nova Orleães já vinham produzindo obras que alertavam para os perigos que ameaçavam a frágil ecologia do golfo, Cameron acredita que estes podem ser determinantes na recuperação da crise: “A arte e os artistas são o sangue vital da identidade cultural de Nova Orleães e a comunidade artística, central na revitalização da cidade após o Katrina, já provou a sua perseverança e a sua capacidade de adaptação perante grandes adversidades”.
Projecto na Líbia inquieta arqueólogos
Com a imagem gravemente afectada após o derrame no Golfo do México, a BP prepara-se para se envolver em nova polémica, já que a sua anunciada intenção de investir 900 milhões de dólares na abertura de cinco poços no Golfo de Sirta, perto da costa da Líbia, está a causar grande preocupação entre os arqueólogos. Claude Sintes, director de uma equipa francesa de arqueologia subaquática em missão na Líbia, garante que “a captação de petróleo ao largo da costa da Líbia seria um completo desastre”.
Toda esta zona do Mediterrâneo é uma espécie de tesouro arqueológico imerso, onde tanto se encontram embarcações da antiguidade greco-romana como navios de guerra do século XX, e ainda ruas antigas com edifícios intactos.
Sintes explica que ao longo da costa líbia há duas áreas particularmente ricas do ponto de vista arqueológico, a Cirenaica e a Tripolitânia. A primeira inclui o antigo porto de Apolónia, hoje submerso a cinco metros de profundidade, que é uma verdadeira cidade, com ruas e casas. Já a Tripolitânia, que se estende até à costa tunisina, integra dois locais arqueológicos relevantes: Leptis Magna, outrora uma importante cidade portuária romana, e Sabratha, que conserva os vestígios de um teatro romano e de um edifício de banhos revestido com mosaicos notáveis. Ambos os sítios foram classificados pela Unesco como património mundial.
O porta-voz da BP, Robert Wines, garantiu que a empresa estudou o previsível impacto da obra, quer em termos sísmicos, quer no que respeita à possível destruição de vestígios arqueológicos, que os planos da operação foram revistos “à luz do incidente no Golfo do México”, e que os poços serão perfurados a uma distância segura dos sítios arqueológicos.



