A distância mais curta entre dois pontos é em linha recta. A menos que a viagem seja feita no cargueiro Arctic Sea. O desaparecimento do navio, durante semanas, com notícias contraditórias acerca do seu paradeiro - algures entre o mar Báltico e a costa africana - parece uma história de espionagem em alto mar, saída de uma intriga internacional de John le Carré. O navio foi finalmente localizado no domingo, ao largo de Cabo Verde, mas o mistério permanece. Por onde andou o barco? Por que é que foi atacado e desviado? Transportaria carga ilegal a bordo? Para já ainda não há respostas a estas perguntas, mas a Rússia deteve ontem oito pessoas que talvez ajudem a clarificar este imbróglio.
O navio esteve desaparecido quase 20 dias, em pleno século XXI - o mesmo dos satélites e dos sistemas de navegação. De pavilhão maltês, pertence a um armador finlandês, a Solchart Management Ltd, dirigida por russos. A tripulação era composta por 15 trabalhadores russos e a carga que transportava foi retirada dos bosques da Finlândia. Madeira valiosa. O Arctica Sea, com 98 metros de comprimento, nunca teria feito manchetes de jornais se não tivesse desaparecido durante mais de duas semanas e voltasse a ser avistado, a 2500 milhas marítimas do local onde deveria ter atracado.
Pouco depois da partida, no dia 23 de Julho, entrou em águas suecas, no mar Báltico, e foi precisamente aqui que começou o folhetim naval. Um punhado de homens subiu a bordo do navio pedindo ajuda, com a desculpa de problemas técnicos na própria embarcação, indicou à agência Interfax o ministro russo da Defesa, Anatoly Serdyukov. Uma vez a bordo, os homens ameaçaram, espancaram e interrogaram os elementos da tripulação, obrigando-os de seguida a rumar em direcção a África, apesar de inicialmente as notícias terem indicado que os homens teriam batido em retirada escassas 12 horas depois de terem subido ao Arctic Sea.
Ontem, os homens alegadamente responsáveis por este ataque foram detidos pelas autoridades russas, tendo o ministro da Defesa adiantado tratar-se de quatro cidadãos estónios, dois letões e dois russos. São todos considerados suspeitos e estão a ser interrogados pelas autoridades.
Como se explica este ataque? Até agora as informações são poucas ou nenhumas. Sabe-se apenas que os atacantes terão desligado o sistema de identificação automática (AIS, na sigla em inglês) - uma espécie de radar que faz com que cada navio possa ser localizado, funcionando igualmente como equipamento para evitar colisões - para que o rumo do navio não fosse detectado.
Contactado pelo PÚBLICO, um porta-voz da Agência Europeia de Segurança Marítima, Peter Thomas, recusou-se a prestar declarações acerca do caso Arctic Sea, mas explicou que os proprietários que desliguem o AIS sem motivo de força maior (como por exemplo em caso de perigo para a tripulação em zonas de piratas) serão multados.
Em caso de perda deste sistema, os tripulantes de uma embarcação em apuros podem proceder de acordo com uma série de protocolos, um dos quais obrigatório a partir de 2004 (num mundo pós-11 de Setembro), chamado Ship Security Alert System - e que basicamente põe à disposição do comandante dois botões que deverão ser accionados em caso de ataque e que estão numa localização secreta do navio, apenas conhecida pela pessoa que o comanda. Quando premido um destes dois botões, as autoridades em terra (e apenas estas e mais ninguém dentro do barco) ficam a saber do sucedido, devendo agir em conformidade, indicou ao PÚBLICO o director de Segurança Marítima do Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos, José Maciel.
À deriva
O facto de não ter sido accionada nenhuma manobra de socorro a bordo após a retirada dos atacantes lança ainda mais mistério sobre todo este caso e sobre a actuação dos seus tripulantes. José Maciel reconhece que "não é fácil perceber" como é que um navio anda mais de duas semanas à deriva, numa altura em que praticamente nenhuma embarcação consegue andar no mar sem ser detectada.
A odisseia do Arctic Sea começou a 23 de Julho, quando o navio, carregado com 4000 toneladas de madeira, zarpou do porto finlandês de Pietarsaari (centro-oeste). O destino era Bejaia, na Argélia, onde deveria ter chegado a 4 de Agosto. Não chegou. Pelo meio fica todo um mistério que se irá revelando pouco a pouco.
Depois da partida do porto finlandês, o cargueiro entrou em águas suecas, no dia 24 de Julho, onde teria sido atacado pelos homens ontem detidos. Depois do incidente, ainda foi localizado ao atravessar o canal da Mancha e dois dias depois (a 30 de Julho) dava os últimos "sinais de vida" a 50 milhas marítimas a sul de Penzance (o porto da Cornualha inglesa), perto de Brest (França).
Depois disto, o barco rumou a sul e teria sido atacado uma segunda vez junto à costa portuguesa, de acordo com o porta-voz do comissário europeu dos Transportes, numa altura em que o AIS já estava desligado e ninguém sabia onde estava o navio. Mas nunca houve provas de um ataque junto a Portugal e uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros português reiterou à Lusa que o navio "nunca passou por águas territoriais portuguesas".
Tendo ou não passado ao largo da costa portuguesa, uma vez falhada a sua entrada no estreito de Gibraltar, ficou claro que o Arctic Sea teria continuado para sul, pelo Atlântico, em direcção à costa africana.
Depois de Finlândia, Suécia e Malta terem começado a investigar o caso logo nos primeiros dias a seguir ao ataque de 24 de Julho, as autoridades de mais de 20 países passaram também a contribuir, por meio dos canais da Interpol e da Europol.
No dia 12 de Agosto, uma semana depois de o Arctic Sea não ter chegado ao destino, o Presidente russo Dmitri Medvedev deu ordens à Marinha russa para que levasse a cabo "todas as medidas necessárias" para encontrar o navio. Dois submarinos nucleares e o vaso de guerra Ladny começaram então a cruzar as águas, em busca do "barco-fantasma".
As primeiras notícias que davam conta da presença do navio ao largo de Cabo Verde foram avançadas na sexta-feira à noite pelo director-geral da Defesa de Cabo Verde, Pedro Reis, que disse que o navio fora avistado perto da ilha de São Vicente. Estranhamente, porém, esta informação foi desmentida pouco depois pelo embaixador russo naquele país africano.
Pelo meio, durante o último fim-de-semana, foi feito um pedido de resgate no valor de milhão e meio de dólares (mais de um milhão de euros), indicaram investigadores finlandeses, embora ninguém consiga confirmar se se tratou de uma exigência legítima ou de uma tentativa de lucro para oportunistas, indica o Times.
O Arctic Sea foi finalmente localizado no domingo, a cerca de 300 milhas marítimas (cerca de 480 quilómetros) ao largo do arquipélago cabo-verdiano e colocado segunda-feira sob vigilância da Rússia e da NATO. Toda a tripulação se encontrava de boa saúde; está de regresso à Rússia e a ser questionada acerca do que se passou durante as mais de duas semanas que a embarcação andou desaparecida.
Teorias e especulações
Por que é que seis cidadãos da União Europeia e mais dois russos subiriam a bordo de um navio para interrogarem e brutalizarem a sua tripulação? Por que é que os tripulantes não pediram socorro? Como é que um barco se consegue "eclipsar" durante quase 20 dias sem ser detectado?
Os detalhes desta história só deverão conhecer-se nos próximos dias, mas entretanto foram avançadas algumas teorias e especulações que têm encontrado algum eco na imprensa europeia.
Uma das teorias dava conta da tentativa de transformação do Arctic Sea num "barco-fantasma" que, uma vez desaparecido dos radares do controlo marítimo mundial, passaria a actuar por entre as malhas da legalidade, atacando e roubando outros navios. Outra teoria especulava que a embarcação poderia ter sido alvo de um ataque de piratas, algo sem precedentes em águas europeias nos tempos modernos, mas muito comum ultimamente ao largo da Somália, mas também do Quénia e da Tanzânia. Durante o ano passado, mais de 130 navios mercantes foram atacados ao largo do Corno de África. Qualquer uma destas duas teorias foi porém rapidamente afastada pelas autoridades europeias e russas.
Outra das especulações - também logo repudiada - passou inicialmente pela hipótese de alguma organização ambientalista ter desviado o navio, como forma de protesto contra a carga que transportava: madeira. Este tipo de acções não é estranha a Portugal. Activistas da Greenpeace e da Quercus tentaram sem sucesso, em Março de 2005, impedir a entrada no Porto de Leixões do navio Skyman, carregado de madeira proveniente de empresas envolvidas em abate ilegal e destrutivo na Amazónia.
Outras indagações começaram a dar conta de que o episódio do Arctic Sea será fruto de rivalidades comerciais em terra, que se prolongaram para o mar. Outras ainda avançam que o navio podia estar a transportar carga ilegal - como armas, drogas ou até material nuclear - sem o conhecimento da tripulação nem dos proprietários do barco, avançou o Daily Telegraph. Há ainda teorias que avançam que a tripulação estaria a par de tudo. David Osler, do Lloyd's List (um dos mais antigos jornais do mundo, que cobre assuntos relacionados com os transportes marítimos) indicou à BBC que este episódio - que classificou como "incidente misterioso" e "fora do normal" - parece começar a revelar que a tripulação não terá sido coagida, adivinhando-se uma eventual "reviravolta" neste enredo. Enquanto Moscovo não explicar o que realmente se passou, qualquer teoria acerca do desaparecimento do navio em águas europeias é válida.
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