Apelos do Papa: Uma pátria, um muro para destruir e o não ao terrorismo

13.05.2009 - 23:12 Por António Marujo, Belém
Um Estado e uma pátria independente para os palestinianos, o trágico significado do muro de segurança construído por Israel, o fim do bloqueio a Gaza, a recusa do terrorismo. Ontem, em Belém, nos Territórios Palestinianos, o Papa Bento XVI deixou claro, nos cinco discursos que proferiu, o que pensa sobre o conflito entre Israel e palestinianos.
O Papa fez a experiência, mesmo se de carro, de atravessar o enorme muro construído por Israel, quando se dirigiu da residência do núncio apostólico em Jerusalém para Belém. Aqui seria recebido pelo presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas. À tarde, com os refugiados de Aida, esteve a 30 metros do muro que serve de protecção a Israel.
O primeiro palco construído pelos palestinianos para o evento foi rejeitado pelos israelitas e teve que dar lugar ao átrio de uma escola das Nações Unidas. Mas a troca só favoreceu a imagem que os palestinianos pretendiam dar: o muro era o cenário detrás de Bento XVI e, quando as televisões filmavam o Papa, o que se via era ainda o betão armado.
“Num mundo em que as fronteiras estão cada vez mais abertas — ao comércio, às viagens, ao intercâmbio sociocultural —, é trágico ver que continuam a ser erigidos muros”, disse o Papa, traduzido para árabe. Para marcar a consciência da imagem vista por todos, disse: “Enquanto nos reunimos aqui, está uma dura lembrança do ponto morto a que parecem ter chegado os contactos entre israelitas e palestinianos — o muro”.
Cerca de uma hora mais tarde, ao despedir-se de Abbas, fazendo a síntese do dia, Bento XVI, talvez pensando na experiência do seu país de origem, a Alemanha, afirmou: “Se os muros podem facilmente ser construídos, sabemos que não duram para sempre. (...) Mas antes de tudo é necessário abater os muros que construímos em redor dos nossos corações, as barreiras que levantamos contra o nosso próximo.”
Por isso, nestas que eram as suas “últimas palavras” em território palestiniano, Bento XVI quis apelar ao fim da “intolerância e exclusão”. E se nenhuma das posições enunciadas pelo Papa é surpreendente ou novidade na diplomacia do Vaticano, o vigor com que as palavras foram proferidas ou o simbolismo dos lugares deu-lhes uma dimensão única.
Ainda no mesmo cenário do muro cheio de grafitti, o Papa pedira redobrados esforços para as negociações de paz, que poderão ser retomadas em breve (segunda-feira, o primeiro-ministro israelita Netanyahu será recebido em Washington pelo Presidente Obama), entre “os dois lados do muro”, como definiu: “É necessária uma grande coragem para superar o medo e a desconfiança, se se quer ultrapassar a necessidade de vingança pelas perdas e feridas.”
Falando perante Abbas, o Papa quis também recordar o papel da comunidade internacional no apoio ao diálogo de palestinianos e israelitas. Mas ambas as partes têm de estar dispostas “a romper com o ciclo das agressões”. Sob pena de não resultar a ajuda internacional. Pediu ainda a cada “um profundo compromisso em cultivar a paz e a não-violência”.
Um Estado independente
O discurso no campo de refugiados repetiu mensagens que Bento XVI já enunciara horas antes. A mais importante foi quando reconheceu a “legítima aspiração”, ainda por cumprir, “a uma pátria permanente, a um Estado palestiniano independente”.
Esta afirmação tinha sido feita, para surpresa de muitos, logo à chegada a Telavive, na segunda-feira, quando o Papa foi recebido pelas autoridades israelitas. E foi repetida ontem, quando Abbas recebeu Ratzinger.
No palácio presidencial de Belém, com o muro também perto, com um check-point a uns curtos 200 metros, o Papa assegurou: “A Santa Sé apoia o direito do seu povo à soberania de uma pátria palestiniana na terra dos vossos antepassados, segura e em paz com os seus vizinhos, dentro de fronteiras reconhecidas internacionalmente.” Há nove anos, também em Belém, João Paulo II utilizara igualmente a expressão “pátria”.


