Anúncio com Clint Eastwood é confundido com apelo à reeleição de Barack Obama

08.02.2012 - 11:44 Por Kathleen Gomes, em Washington
Um dia depois do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, o principal tema de conversa não foi o facto de uma rapper britânica ter mostrado o dedo do meio quando mais de 111 milhões de pessoas estavam a olhar. Esta é a história de como Dirty Harry eclipsou o gesto obsceno de M.I.A. durante o espectáculo de Madonna (para não falar do corpo nu e tatuado de David Beckham posando num anúncio da H&M durante o intervalo do jogo). Também é uma história exemplar sobre o actual clima político nos Estados Unidos, em que um anúncio televisivo de uma marca de automóveis pode virar lenha na fogueira eleitoral.
O realizador e actor Clint Eastwood é o protagonista de um spot da Chrysler que estreou no domingo, durante o Super Bowl, e que levou as duas Américas - a direita e a esquerda - a perguntarem se o que tinham acabado de ver era um anúncio a automóveis ou um vídeo de campanha a favor da reeleição de Barack Obama. Não é que o anúncio de dois minutos alguma vez mencione o nome de Obama. Eastwood faz uma analogia entre o jogo e o estado do país, sugerindo que a América está no intervalo. "As duas equipas estão no balneário a debater o que podem fazer para ganhar este jogo na segunda parte", diz o realizador na sua voz de gravilha, emergindo da galeria subterrânea de um estádio. "A América também está no intervalo. As pessoas estão sem trabalho e isso é doloroso. Estão todas a ponderar o que hão-de fazer para recuperar. E têm medo, porque isto não é um jogo."
O anúncio sugere que à semelhança da Chrysler - que voltou a obter lucro depois de ter estado à beira da bancarrota em 2008 e de ter recebido uma injecção de 12,5 mil milhões de dólares do Governo americano -, a economia do país vai recuperar porque os americanos são um povo resiliente e orgulhoso. Não é por acaso que é narrado por Eastwood, o último dos duros. Ele termina com uma nota optimista: "Este país não pode ser derrubado com um soco. Nós voltamos a levantar-nos e quando o fizermos o mundo vai ouvir o ronco dos nossos motores. Sim, a América está no intervalo. E a nossa segunda parte está prestes a começar."
Alguns exegetas viram na mensagem do anúncio uma forte defesa da reeleição de Obama - a tal referência à segunda parte do jogo. Outros, como Karl Rove, um dos mais consequentes estrategos da administração Bush, viram nele a retribuição de favores políticos por Obama ter autorizado um resgate financeiro (bailout) da Chrysler em 2009. Na Fox News, Rove disse sentir-se "francamente ofendido" pelo anúncio. "Isto é um sinal do que acontece quando o Governo vai para a cama com o mundo do negócio, como foi o caso do resgate das companhias de automóveis. Isto é um sinal do que acontece quando o Presidente dos EUA e os seus vassalos políticos usam o dinheiro dos contribuintes para comprarem publicidade empresarial, dinheiro que nunca será devolvido aos contribuintes."
Segundo o Departamento do Tesouro, a Chrysler pagou 11,2 mil milhões dos 12,5 que recebeu. O anúncio não faz qualquer referência ao bailout.
A polémica obrigou a Casa Branca a reagir. O porta-voz de Obama para a imprensa, Jay Carney, garantiu que a Administração não teve nada a ver com o anúncio. O director executivo da Chrysler, Sergio Marchionne, disse a uma rádio de Detroit que ninguém no interior da sua empresa "estava a tentar influenciar decisões". "A mensagem é suficientemente universal e neutra para poder apelar a toda a gente neste país", afirmou.
O anúncio contém imagens que reflectem as divisões políticas - protestos à porta da Casa Branca, o excesso ideológico das televisões -, mas é um apelo à união nacional - imagens de bombeiros que participaram nas operações de salvamento do 11 de Setembro, retratos de famílias. A ironia é que provocou o tipo de discórdia que pretendia deplorar.
Eastwood disse, ou mandou dizer, que não tem qualquer ligação com Obama. O anúncio levou muita gente a perguntar se o realizador de 82 anos, que sempre se identificou como republicano, tinha subitamente virado democrata. George H. W. Bush chegou a ponderar convidá-lo para vice-presidente em 1988. Em 2008, Eastwood apoiou e contribuiu financeiramente para a campanha de John McCain. Ao New York Times, o realizador disse que "o anúncio não tem qualquer mensagem política". " Ele é sobre o espírito americano, orgulho e crescimento de emprego." Dirty Harry não teria sido tão paciente.


