1. Se fosse precisa uma prova de que o projecto de integração europeia, lançado em 1958 para impedir que a guerra voltasse a destruir a Europa, sobreviveu de razoável saúde à maior transformação geopolítica vivida depois do fim da II Guerra, ela será hoje feita em Berlim.
Há 20 anos, o choque da unificação alemã e do colapso da URSS levou muita gente a prever o fim do projecto europeu. Desaparecia o inimigo que o manteve coeso. Renascia no coração do continente uma grande Alemanha. A desintegração sangrenta da Jugoslávia mostrava como era fácil o regresso do nacionalismo extremo. Os últimos vinte anos derrotaram esta tese. A Europa que se reúne hoje em Berlim a convite da primeira chanceler da Alemanha que veio do Leste alargou-se à dimensão do continente. Consolidou a sua integração, dando-lhe uma nova dimensão política. Aperfeiçoou as suas instituições. Quando hoje os líderes europeus festejarem em Berlim esse acto refundador que foi a queda do Muro, terão em mente apenas uma coisa: a escolha dos nomes para os novos cargos de presidente do Conselho Europeu e Alto Representante para a Política Externa e de Segurança. O Tratado de Lisboa foi ratificado a tempo de não estragar as celebrações. Entrará em vigor no dia 1 de Dezembro. Conclui um longo caminho que teve início em Maastricht, paragens em Amesterdão e Nice e um pequeno despiste na Constituição europeia. Durante vinte anos, a União esteve mergulhada numa incessante reforma interna apenas com um objectivo: digerir as transformações de 1989 e adaptar-se ao mundo que delas emergiu. Tão simples - e tão complicado - quanto isto.
2. Maastricht, o Tratado de 1991 que mudou o nome à Europa de Comunidade para União, foi a primeira resposta, a quente, à "súbita aceleração da História" que abalou o continente. A ideia de que era preciso aperfeiçoar o Mercado Interno em direcção a uma união monetária já existia. A unificação alemã acelerou o processo. O objectivo da França era "amarrar" a Alemanha à integração, pedindo-lhe que partilhasse o mais forte símbolo do seu poder e da sua soberania: o marco. Foi essa a condição de François Mitterrand para a unificação. Helmut Kohl pagou o preço. A União Económica e Monetária é o grande avanço de Tratado de Maastricht. O resto - a nova dimensão política da integração - pode esperar. Jacques Delors chama-lhe, por isso, um tratado "coxo". A Europa ainda se pensa apenas como ocidental.
O euro é a grande realização da década de 1990. O desafio estratégico da unificação europeia fica adiado para a década seguinte.
3. É Mitterrand, mais uma vez, quem toma a dianteira ao propor, logo em Dezembro de 1989, uma grande Confederação Europeia construída à volta da Comunidade. Queria que a Alemanha continuasse virada para Oeste. Temia que um alargamento afastasse a sua concepção de uma Europa política, autónoma face aos EUA. Vaclav Havel havia de responder-lhe, em Junho de 1991, num célebre discurso em Praga. O "regresso à Europa" reivindicado nas ruas de Leipzig ou Budapeste só pode querer dizer a plena integração. A UE reconhece essa dívida moral. Mas não se rende facilmente. Uma Europa de "círculos concêntricos"? De "geometria variável"? Todas esbarram nas aspirações das jovens democracias de Leste. E contra "o supremo interesse alemão", como escreveu Joschka Fischer. Finalmente, a cimeira de Lisboa em Junho de 1992 aceita o desígnio do alargamento. Por fases. Implicando uma prévia reforma institucional. "Far-se-á", diz Jacques Delors. "Mas antes é preciso pôr a casa em ordem."
4. Amesterdão, em 1997, foi apenas uma pequena arrumação. O tratado democratiza a União, alarga a integração no domínio da segurança interna. Cria a figura do Alto Representante para a Política Externa, tentando dar-lhe um rosto na cena internacional. A humilhação na Bósnia conduz a um passo tímido na política de defesa. Mas deixa intacta a questão institucional. A Europa fala da necessidade de preparar as suas instituições para aceitarem mais países. O que quer dizer realmente é que precisa primeiro de rever o equilíbrio de poderes interno. Entre grandes e pequenos, mas sobretudo entre os grandes.


