Alemanha começa a julgar antigo guarda de campo nazi pela morte de milhares de judeus

30.11.2009 - 11:31 Por PÚBLICO
O suspeito antigo guarda das SS John Demjanjuk, com 89 anos, começou hoje a ser julgado em Munique pela acusação de ter colaborado, em 1943, na submissão de 27.900 judeus às câmaras de gás no campo de extermínio de Sobibor, na Polónia ocupada – no que se prevê ser o último grande processo judicial da era nazi na Alemanha.
De origem ucraniana e reformado nos Estados Unidos, onde vivia desde 1951 e trabalhara como mecânico, Demjanjuk chegou ao tribunal numa cadeira de rodas, depois de travar e perder uma batalha jurídica na Primavera passada contra o pedido de extradição feito pela justiça alemã.
Os procuradores germânicos crêem que Demjanjuk – um dos nomes de topo da lista de criminosos de guerra do Centro Simon Wiesenthal – foi um dos homens que participaram nas mortes de judeus em Sobibor, onde se crê que pelo menos um quarto de milhão de pessoas foram mortas. O arguido admite ter estado em outros campos nazis, como guarda, mas não em Sobibor, que era gerido por 20 a 30 agentes das SS e quase 150 antigos prisioneiros de guerra soviéticos.
Demjanjuk integrou o Exército Vermelho na luta contra a Alemanha nazi antes de ser capturado e recrutado como guarda de campo. Os procuradores, que devem apresentar hoje a lista de acusações e pedir uma sentença de prisão perpétua, pretendem mostrar em tribunal provas testemunhais e também documentos, incluindo um cartão de identificação, para provar que o arguido esteve em Sobibor durante pelo menos seis meses no ano de 1943.
Grupos de judeus e familiares das vítimas do campo de concentração e extermínio defendem que nunca é tarde demais para que a justiça seja feita, acolhendo este julgamento como profundamente simbólico. “Não devemos nunca cometer o erro de pensar que um caso contra um criminoso de guerra é um caso contra só um homem. Quando os sinos tocarem por John Demjanjuk estarão a soar também por todos os outros criminosos de guerra. Mesmo se não lhes provoca mais do que noites sem sono”, avaliou o rabi Marvin Hier, director do Centro Wiesenthal em Los Angeles, em declarações à agência noticiosa britânica Reuters.
John Demjanjuk foi extraditado dos Estados Unidos – país de que é cidadão naturalizado desde 1958 – para a Alemanha em Maio passado e nega veementemente ter tido qualquer colaboração na morte de judeus. Os seus familiares sustentam que se encontra frágil demais, devido a uma doença da medula óssea, para enfrentar um julgamento: “Estão a forçar o julgamento apesar da condição em que o meu pai se encontra”, lamentava o filho de Demjanjuk, em comunicado emitido esta manhã.
As audiências não deverão durar mais do que 90 minutos por dia, e por não mais do que três dias por semana , atendendo ao estado débil do arguido, explicou tribunal. Crê-se que o julgamento se prolongue até Maio próximo.
Demjanjuk fora já antes julgado em Israel – para onde foi extraditado dos Estados Unidos em 1986 – onde foi identificado como sendo um dos mais temíveis e sádicos guardas prisionais do campo de concentração de Treblinka, onde era conhecido como “Ivan, o terrível”. Foi condenado à morte em 1988, mas a sentença acabou por ser afastada quando surgiram novas provas sugerindo que um outro homem era provavelmente o malfadado “Ivan” de Treblinka.


