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Alimentação

Agricultores europeus e africanos levaram comissário do Comércio a "julgamento"

08.12.2007 - 15:36 Por Raquel Albuquerque

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Mandelson foi alvo de um protesto em Lisboa Mandelson foi alvo de um protesto em Lisboa (Hugo Correia/Reuters)
Os pequenos agricultores africanos e portugueses gostavam que a encenação fosse real. Dez pessoas tiveram a acusação a cargo, ninguém tratou da defesa, houve um juiz e a fotografia do réu Peter Mandelson, comissário do Comércio da UE.

Foi assim, de forma simbólica, que os pequenos agricultores consideraram Mandelson culpado dos problemas que os Acordos de Parceria Económica (APE, que Bruxelas já começou a assinar com os países africanos) podem representar, designadamente através da liberalização dos mercados entre a Europa e África. A sessão do Tribunal de Opinião Pública decorreu sexta-feira no Centro Cultural de Moscavide, organizado por diferentes organizações de agricultores de África e Europa.

Vários produtos trazidos pelos agricultores portugueses preenchiam o cenário. Milho, arroz, cestos de fruta e vinho. “Desenvolvimento rural só é possível com a agricultura familiar a produzir”, lia-se num cartaz da Confederação Nacional da Agricultura. João José Fernandes, director executivo da organização OIKOS Cooperação e Desenvolvimento, encara esta sessão como “uma forma de expressar o descontentamento quanto aos acordos propostos”.

No centro da discussão está o direito humano à soberania alimentar. “A liberalização dos mercados dificulta e prejudica a possibilidade dos povos assegurarem a sua própria alimentação”, explicou ao PÚBLICO o senegalês Ndiogu Fall, presidente da Rede de Agricultores da África Ocidental. Ao inundar o mercado africano com produtos europeus, os agricultores locais deixam de conseguir escoar a sua produção.

Justus Lavi, da Associação de Pequenos Agricultores do Quénia, garante que é impossível competir com a Europa. “Quando chegam ao nosso mercado pequenas embalagens de leite, vindas da Dinamarca a um baixo preço, torna-se impossível vender o nosso leite”, explica Lavi ao PÚBLICO. “Nós trabalhamos à mão, sem infra-estruturas, sem a qualidade do que vem de fora”, acrescentou. Mas vários agricultores do Quénia juntaram-se e fizeram uma queixa aos seus tribunais contra o Governo, pelo direito que têm à alimentação e que está a ser violado. “Vemos esta iniciativa como algo a que os outros países africanos estão interessados em aderir e essa é a esperança de sucesso desta acção”, sublinha.

“Precisamos de tempo para nos desenvolvermos antes de negociar com a Europa”, disse Ndiogu Fall. Na agricultura do Senegal “sentem-se grandes dificuldades mas o país tinha capacidades para produzir para além das necessidades”. Tempo é o que pede também Justus Lavi que lembra que a agricultura no Quénia está a desaparecer e que isso significa um aumento da fome e da pobreza. O contra-senso que existe, segundo João José Fernandes, “é a fome predominar nas zonas rurais, onde o potencial agrícola é enorme”. O director executivo da OIKOS conclui que “as ajudas da União Europeia falham o alvo, pois só beneficiam as grandes agro-indústrias”.

Após o veredicto final do julgamento, que considerou Mandelson culpado da incapacidade dos países serem soberanos na alimentação, seguiu-se uma marcha para a Gare do Oriente. Acrescentaram-se castanhas, azeitonas, repolhos, cenouras, nabos e cebolas ao cenário, agora na rua, em frente à estação. Constituíam uma pequena amostra do que a agricultura familiar portuguesa produz. Do encontro dos agricultores resultou uma declaração que foi entregue na Cimeira UE-África. “A esperança que resulte é pouca, mas não deixamos de tentar. Será uma conquista a longo prazo”, confessou Justus Lavi.

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