Milhões de afegãos desafiaram ontem as ameaças dos taliban, votando nas segundas eleições presidenciais e provinciais realizadas no país desde 2001. Mais de cem ataques fizeram 26 mortos, mas só em casos esporádicos a votação foi interrompida pela violência. A principal incógnita é agora a taxa de participação, um dos principais indicadores para medir o sucesso destas eleições, sendo certo que uma elevada abstenção torna menos provável a reeleição à primeira volta do Presidente Hamid Karzai.
As urnas fecharam às 17h (13h30 em Lisboa), uma hora depois do previsto para permitir o voto dos eleitores que aguardavam nas filas. A contagem de votos já começou, mas os primeiros resultados só serão conhecidos a partir de 3 de Setembro.
No final da jornada eleitoral, Karzai disse que, apesar de mais de metade das províncias terem registado incidentes violentos, "foi um bom dia para o Afeganistão e para o seu povo".
"Veremos qual é a taxa de participação, mas o facto de as pessoas terem votado já é magnífico". Apesar da "satisfeito", o ministro do Interior admitiu que a afluência não foi igual em todo país: "Em 70 por cento das províncias tivemos uma óptima participação e nas restantes, apesar das ameaças, a nossa população foi corajosa para ir às urnas".
Rockets em Kandahar
A disparidade foi confirmada pelos jornalistas que acompanharam a votação. Se no Norte, mais poupado aos ataques dos rebeldes, os eleitores tiveram de esperar em longas filas, nas regiões do Sul e Leste a participação terá sido muito inferior à registada nas presidenciais de 2004.
Uma situação que pode favorecer Abdullah Abdullah, o principal rival de Karzai, que tem a sua base de apoio nas regiões setentrionais, enquanto o Presidente domina nas regiões pashtun do Sul.
"Eu sei que os taliban ameaçaram as pessoas (...). Mas eu quero segurança e quero viver a minha vida no meu país", contou ao "New York Times" um jovem que se atreveu a votar em Kandahar. A cidade foi uma das mais castigadas pelos rebeldes, com mais de uma dezena de rockets lançados contra diferentes alvos, incluindo a casa do governador.
Ataques semelhantes repetiram-se em Helmand, Ghazni (Sul) e Kunar (Leste), mas houve também incidentes em Kunduz, no Norte, mostrando que a guerrilha se movimenta com crescente facilidade em todo o país.
Foi também no Norte que ocorreu uma das acções mais violentas do dia, quando um comando armado invadiu uma esquadra da província de Baghlan, matando o chefe da polícia. A votação teve de ser suspensa e 22 rebeldes morreram nos confrontos com a polícia. E em Cabul, a polícia matou dois elementos de um comando que diz ser responsável pelos ataques dos últimos dias e prendeu um terceiro. Os três homens estariam a preparar o ataque contra uma esquadra.
Ao todo, nove civis e 17 membros das forças de segurança afegãs morreram nos 135 ataques registados pelo Governo. Mas para os responsáveis internacionais, o simples facto de o Afeganistão ter conseguido realizar as eleições é, só por si, uma vitória.
O secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, disse que o escrutínio foi "um sucesso do ponto de vista da segurança". O chefe da missão da ONU, Kai Eide, congratulou-se pelo facto de, na generalidade do país, "ter havido condições para a população participar nas eleições".
Também Barack Obama - que definiu estas eleições como uma etapa fundamental da nova estratégia para a estabilização do país - falou em "sucesso". E o seu enviado especial para a região, que acompanhou as eleições em Cabul, sublinhou que "todas as previsões de desastre se revelaram erradas". Mas Richard Holbrooke diz que "o verdadeiro teste" será a contagem de votos.
Dezenas de reclamações foram já apresentadas e um jornalista do Guardian pôde confirmar que, numa secção de Cabul, a tinta supostamente indelével usada para tingir o indicador dos eleitores que já tinham votado era facilmente lavada com recurso a detergentes domésticos.
Artico publicado na edição impressa


