Administração de Obama nega eventuais negociações secretas com o Hamas

09.01.2009 - 17:08 Por Susana Almeida Ribeiro
O “The Guardian” indicava ontem que a Administração do Presidente eleito norte-americano, Barack Obama, poderia vir a negociar com o Hamas, ainda que de forma não oficial. O jornal citava vários especialistas americanos, que terão dado a entender que o novo chefe de Estado poderia abandonar a actual política de isolamento do Hamas preconizada pelo governo de Bush e estabelecer um canal de diálogo com a organização islamista. A equipa de Obama negou hoje, porém, estas alegações.
“O Presidente eleito já disse repetidas vezes que acredita que o Hamas é uma organização terrorista dedicada à destruição de Israel, e que nós não devemos negociar com ele até que reconheça Israel, renuncie à violência e respeite acordos passados”, indicou, em comunicado, Brooke Anderson, a porta-voz de Obama nesta fase de transição de poderes na Casa Branca, citada pela Fox. “As repetidas declarações do Presidente Obama são rigorosas. Esta história sem fontes não o é”, acrescentou, referindo-se à notícia publicada pelo jornal britânico.
O “The Guardian” escrevia ontem: “Não há dados que indiquem que Obama irá aprovar negociações diplomáticas directas com o Hamas durante a sua administração, mas ele está a ser pressionado pelos seus conselheiros a iniciar abordagens a um nível mais baixo (que incluam apenas sub-secretários) ou clandestinas [com o grupo islamista], e há uma constatação crescente em Washington que a política de ostracização do Hamas é contra-produtiva”.
Apesar de ter adoptado uma forte posição pró-Israel durante a sua campanha, e de ter dito em ocasiões anteriores que apoia um Estado de Israel com uma Jerusalém indivisível, é comummente aceite que Obama deverá adoptar uma atitude menos rígida após a sua tomada de posse, a 20 de Janeiro, indicava ontem o jornal britânico. O diário acrescentava ainda que uma das abordagens a adoptar para conduzir essas negociações poderia ser através da CIA, à semelhança das conversações secretas estabelecidas na década de 1970 entre a secreta americana e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), das quais Israel nada chegou a saber então.
Citado pelo jornal, Richard Haass, um diplomata que tem vindo a ser repetidas vezes apontado como a escolha provável de Obama para o Médio Oriente, indicou que apoia contactos de “baixo nível”, desde que se consiga alcançar um cessar-fogo e uma reconciliação entre o Hamas e a Fatah, de costas voltadas desde que o movimento islamista assumiu pelas armas o controlo da Faixa de Gaza, no Verão de 2007.
“O isolamento total do Hamas, que foi decretado sob a Administração Bush, está prestes a acabar”, disse por seu lado Steve Clemons, o director do Programa Estratégico Americano, na New America Foundation, citado pelo diário, acrescentando que poderia até forjar-se uma solução que incluísse os europeus, admitindo que tudo isso poderia chocar a direita americana.
Obama e a sua escolha para secretária de Estado (o equivalente a ministra dos Negócios Estrangeiros), Hillary Clinton, adoptaram durante as respectivas campanhas atitudes fortemente pró-israelitas, mas durante esse período Obama fez questão de assumir que não teria problemas em conversar com os tradicionais “inimigos” dos EUA, incluindo o Presidente do Irão.
As negociações com o Hamas – a acontecerem, ainda que a campanha de Obama as tenha entretanto desmentido – inspirar-se-iam precisamente nesta atitude mais moderada de Obama. Até porque vai crescendo o sentimento, entre democratas e republicanos, que não se conseguirá atingir uma paz duradoura no Médio Oriente sem o envolvimento do Hamas, acrescentava o “The Guardian”.

