Activista da ex-RDA Joachim Gauck vai ser o novo Presidente alemão, contrariando Merkel

20.02.2012 - 17:57 Por Maria João Guimarães
É a maior derrota da chanceler alemã, Angela Merkel, sentencia a revista alemã Der Spiegel: os liberais, seus parceiros no Governo, juntaram-se à oposição (sociais-democratas e verdes) no apoio ao candidato Joachim Gauck, activista de direitos civis da antiga República Democrática Alemã (RDA), para a presidência.
A chanceler já declarou, no domingo à noite, o seu apoio a Gauck, que deverá agora ver o seu nome aprovado pela Assembleia Federal, o organismo especial que elege o Presidente, a 18 de Março. A Alemanha terá assim, para além de uma chanceler que viveu na ex-RDA, filha de um pastor protestante, um Presidente pastor luterano, também do Leste.
Joachim Gauck, 72 anos, ex-director dos arquivos da polícia política Stasi, tinha sido proposto para a presidência na primeira vez em 2010 pelos sociais-democratas e verdes, mas esbarrou no nome do candidato seleccionado pela própria Angela Merkel, Christian Wulff.
A proposta da oposição gerou entusiasmo na imprensa: Gauck era “o melhor Presidente” (Der Spiegel) ou “o Presidente dos corações” (Bild). O apoio da revista de referência e do tablóide de maior circulação mostra a popularidade do candidato. Gauck forçou Wulff a três humilhantes rondas de votação, mas à terceira o candidato de Merkel foi eleito.
Com a demissão de Wulff na sexta-feira (depois ter sido anunciada uma investigação a alegações de corrupção), os liberais e a oposição forçaram Gauck. O candidato é, na sua própria descrição, um “conservador da esquerda liberal”, e a sua popularidade entre sociais-democratas e verdes não será agora tão grande como em 2010: Gauck defendeu o polémico Thilo Sarrazin nas suas afirmações anti-imigração, manifestou-se contra a suspensão do nuclear na Alemanha, e criticou o movimento “occupy”. Será “o Presidente mais conservador que a Alemanha já teve”, diz o diário Tagesspiegel, especulando que esta teria sido ideia da própria Merkel.
O professor de ciência política Gero Neugebauer, da Universidade Livre de Berlim, que falou ao PÚBLICO por email, não concorda com esta teoria. Segundo relatos, o caso deixou a coligação no Governo em risco, com os liberais a insistirem em Gauck e a CDU a recusá-lo.
“Merkel não é suficientemente forte para acabar com a coligação com os liberais [recusando Gauck], mas é ainda demasiado forte para sair derrotada no seu próprio partido”, onde a elite recusou o antigo activista, defende o professor.
A questão chave para a chanceler, argumenta Neugebauer, é o resultado do que vai acontecendo na sua capacidade de se manter no poder e vencer as eleições em 2013. Neste caso, aceitar Gauck foi a melhor solução.


