Hoje, 135 milhões de brasileiros escolhem entre Dilma e Serra. Ela vai mais de 10 pontos à frente e pode ser a primeira mulher Presidente.
Aborto
Chegou até ao Papa. Sem mencionar a campanha brasileira, mas a três dias da eleição, Bento XVI veio dizer que a Igreja tem a obrigação de intervir no debate político quando se trata de uma questão como o aborto. A declaração foi interpretada como uma defesa dos bispos brasileiros que apelaram ao voto contra quem defenda a liberalização do aborto.
Desde que começaram a circular boatos de que Dilma Rousseff seria "a favor do aborto", o tema tornou-se a arma de arremesso da segunda volta. José Serra cavalgou a onda, insistindo inúmeras vezes na suposta contradição de Dilma, que se declarara favorável à legalização e agora dizia o contrário. E assistiu-se ao espectáculo insólito de dois candidatos, que na verdade são contra a criminalização das mulheres, passarem a campanha a dizer que são "pela vida".
Há 20 por cento de evangélicos no Brasil e o receio de perder esses votos sobrepôs-se. Enquanto líderes evangélicos anunciavam cruzadas contra Dilma, tanto Serra como Dilma tentavam somar apoios entre os religiosos. Dilma conseguiu o apoio de líderes poderosos, como o da IURD, e de bispos católicos, mas perdeu votos.
Bolinha
Se o aborto foi a arma (psicológica) contra Dilma, a bolinha de papel foi a arma (literal) de arremesso contra Serra. Bem pode a campanha dele detalhar que, em rigor, se tratou de um rolo de autocolantes. E bem pode insistir que, depois de a bolinha ter acertado na cabeça de Serra (durante uma passeata de campanha no Rio de Janeiro), ainda foi lançado um objecto mais pesado (que ninguém conseguiu identificar). Lula chamou bolinha ao objecto "contundente" e toda a gente agora lhe chama bolinha. É já um clássico dos programas de sátira, a bolinha de papel que levou o candidato a fazer um exame tomográfico. A exibição dos vídeos (de telemóvel) consumiu horas de debate em televisão.
Comícios
Uma das marcas da campanha brasileira é a presença de contratados nos comícios, passeatas, carreatas, e acções de rua em geral. Tanto Serra como Dilma contaram com "figurantes" pagos (600 reais por mês - 250 euros - e com horário de trabalho), embora isso fosse bem mais flagrante na campanha de Serra, por o PSDB não ser um partido com grande tradição de militância. Usando também figurantes, Dilma contou sempre com a activa militância do PT, e a enorme popularidade de Lula em momentos de rua apoteóticos.
Do lado do PSDB, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso não foi visto na primeira volta a fazer campanha, mas na segunda apareceu ao lado de Serra e até perdeu a sola de um sapato numa passeata.
Simbolicamente, o momento mais emotivo e irrepetível de toda a campanha foi o comício-show no Teatro Casa Grande, do Rio de Janeiro, em que Oscar Niemeyer, 102 anos, se juntou a Chico Buarque, ao teólogo Leonardo Boff e muitos artistas e intelectuais para apoiar Dilma.
Dilma Rousseff
Mineira, 62 anos, Dilma é a mulher que diz sempre "nós, no Governo Lula...". Ex-militante da esquerda guerrilheira (sem ter disparado um tiro), foi presa e torturada pela ditadura. Fez a sua carreira política no Rio Grande do Sul, onde Lula a foi buscar. Tornou-se ministra e depois chefe da Casa Civil. Passou por um cancro. Lula escolheu-a sozinho como a mulher a quem ia entregar o Brasil. Esta é a sua primeira campanha para um cargo público. Tique favorito nos debates: dizer que Serra estava a "tergiversar".
Escândalos
No Brasil, a questão nunca é se vai haver escândalos durante a campanha, mas quantos e com que força, tipo sismo. O escândalo desta foi o de Erenice Guerra, a ex-braço-direito de Dilma na Casa Civil, que está a ser investigada por corrupção. Na segunda volta, Dilma pressionou Serra com o caso de Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, acusado de desviar fundos da campanha do PSDB. Mas desde a pré-campanha vários escândalos-em-curso se arrastam.



