Quando chegou ao poder, em 2005, Angela Merkel era apenas a nova chanceler que vinha do Leste, disponível para devolver à Alemanha o seu papel de charneira na integração europeia e para sarar as feridas abertas na relação com a América pela guerra do Iraque.
O estilo da sua diplomacia, discreto e eficaz como ela própria, rapidamente conquistou simpatia e boa vontade nos palcos europeus e internacionais. Não esperou por Barack Obama para restabelecer uma boa relação com Washington, deixando de precisar de megafone para sublinhar as divergências. Nada na Europa se faz hoje contra ela e tudo se pode fazer com ela. Bastou-lhe ser a "anti-Schroeder" para ganhar os galões de líder europeia e mundial. Preparou o caminho para um segundo mandato que pode incluir um novo capítulo da sua política externa.
É a mesma e, no entanto, já é outra a chanceler que ontem presidiu às celebrações da queda do Muro. É a mesma, na medida em que não mudou a sua profunda crença no poder da liberdade. Disse-o ontem em Berlim, como o tinha dito há uma semana perante o Congresso norte-americano. Nesse sentido, ela continua ser a chanceler que sabe o que significa não ser livre. É a mesma na simplicidade quase arrepiante com que assume o lado negro da história do seu país. É outra, na medida em que se apresenta agora, sem subterfúgios, como a líder de um país que quer liderar a Europa e que vê a relação com a América como uma parceria entre iguais. Não é o velho antiamericanismo, que foi a doença infantil dos europeus e que alimentou os sonhos de grandeza de Paris. É a compreensão de que a relação transatlântica já não é o centro do mundo, porque o mundo deixou de ter como centro o Ocidente. Que deve transformar-se numa relação entre dois pólos de poder mundiais, que partilham os mesmos valores mas nem sempre têm interesses comuns, e que ganham, por isso, em substituir a velha relação de dependência por uma relação de interdependência.
Foi esta a Merkel que vimos ontem em Berlim. A mesma que vimos a dirigir-se ao Congresso americano. Sem vergonha do poder da Alemanha mas consciente do seu passado. Crente nos valores que a América encarna mas sem subserviência ao seu poder. Disposta a liderar a Europa numa nova etapa da sua afirmação. Fazem-se contas em Paris e em Londres.



