A primeira cidade comunista em solo alemão é hoje uma cidade-fantasma

07.11.2009 - 12:12 Por Maria João Guimarães
As ruas de Eisenhüttenstadt são amplas e os prédios estão bem arranjados, com jardins espaçosos e zonas verdes.
Já há poucos sinais dos antigos arranha-céus pré-fabricados do tempo da ex-RDA, os plattenbauten: a maioria foi destruída depois de serem abandonados pelas pessoas que lá viviam. De vez em quando, surge um lembrete de que estamos numa antiga cidade-modelo comunista, fundada em 1950 pelo regime da Alemanha de Leste: uma obra de arte pública típica da época, feita com o ferro produzido na fábrica local.
Mas ao passear pela cidade apercebemo-nos de que falta qualquer coisa: é possível andar quarteirões inteiros sem ver ninguém, no centro há uma ou duas pessoas na rua; há uma solidão acentuada pela dimensão larga das avenidas, pelos relvados ao lado dos passeios, grandes edifícios - tudo quase sem pessoas.
Em 20 anos, muito mudou em Eisenhüttenstadt, que foi também chamada Stalinstadt, a cidade de Estaline. Perto da estação de comboios está Toni Serowy, que trabalhou na fábrica que deu origem à cidade, a EKO, durante dez anos. Veste um fato de treino estafado e fuma um cigarro. Dá uma gargalhada - quase teatral - quando ouve que uma jornalista estrangeira está a escrever um artigo sobre Eisenhüttenstadt. "Boa sorte", diz, antes de dar outra risada, esta mais amarga. "É uma cidade-fantasma", sublinha, explicando: "A cidade tinha 50 mil habitantes, hoje tem 30 mil. A fábrica empregava 12 mil pessoas, hoje emprega 3 mil."
Abana a cabeça: "É como num navio a afundar; os ratos estão todos a fugir." Toni Serowy tem 47 anos e saudades do tempo em que a fábrica funcionava a pleno gás, antes da queda do muro. Ele ainda trabalhou lá nessa altura - entretanto foi um dos muitos que foram sendo despedidos, e hoje é electricista, trabalhando por conta própria. "A cidade começou a morrer depois de cair o muro", conclui.
Um pouco mais à frente na antiga avenida Lenine, onde está hoje um Burger King - e que é aliás o único restaurante visível -, passam dois rapazes adolescentes, um pouco borbulhentos, com bicicletas pela mão.
Matthias Fischer, 18 anos, começa por dizer que gosta de viver aqui. "Quer dizer... mais ou menos, nem tudo é negativo", explica. "Mas não há futuro, não há trabalho", contrapõe. "Por isso penso ir embora." Para onde? "Oeste." Onde no Oeste? "Não faço ideia." Fazer o quê? "Não faço ideia."
Muitas pessoas acabam o liceu, pegam numa mota ou entram num comboio, e vão para oeste, "não interessa para onde", diz Tony Serowy. "E já não voltam."
Steffan Frülih, 26 anos, e Christian Prütz, 24, trabalham numa empresa de imobiliário; são uma espécie de intermediários entre os inquilinos e os proprietários de vários blocos de apartamentos da cidade. Têm opiniões diferentes sobre como é viver aqui: Steffan gosta - "é a minha cidade natal, onde tenho família e amigos", diz; Christian não: "é uma cidade velha, a média de idades é de 45, noutras cidades é de 29, e eu sinto-me cada vez mais aborrecido", queixa-se.
Steffan lembra-se de a cidade ser viva. "Mudou muito - há muitos edifícios que foram destruídos depois de ficarem vazios, quando a população foi saindo. Não há trabalho, a economia está má... toda a gente vai para oeste", nota. "O meu pai trabalhou na fábrica, agora está subcontratado. É uma vida mais difícil", admite Steffan. Mas não gostava de voltar para o regime da antiga Alemanha de Leste. Nem Christian: "Havia um bom sistema escolar, toda a gente tinha emprego, as pessoas não tinham medo do futuro... Há pessoas mais velhas que acham que antes era melhor. Mas nós preferimos viver neste sistema: podemos viajar, comprar o que quisermos."
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