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Katrina, cinco anos depois

A nova Nova Orleães: esta cidade não é para pobres

27.08.2010 - 09:10 Por Kathleen Gomes, em Washington

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A reconstrução tem sido desequilibrada, diz cientista A reconstrução tem sido desequilibrada, diz cientista (Foto: Brian Snyder/Reuters)
Os bairros mais pobres continuam por reconstruir após o furacão de 29 de Agosto de 2005. E o número de vítimas permanece por apurar.

John Mutter tem uma teoria potencialmente controversa: os desastres naturais podem ser benéficos para os países. Director do Earth Institute da Universidade de Columbia, Nova Iorque, explica a sua posição com uma analogia doméstica: "Imagine que tem um incêndio na cozinha, e a seguradora diz-lhe: "O.K., vamos substituir tudo." Vai até à loja e compra um frigorífico novo, melhor do que o que tinha. O mesmo com o fogão, e por aí fora. Portanto, melhora as coisas. Agora pense nas infra-estruturas físicas de uma cidade: estradas, pontes, escolas, hospitais, aeroportos. Se uma ponte miserável, de uma faixa, for varrida por uma tempestade, pode substituí-la por uma de aço e betão de quatro faixas. As políticas deviam ser dirigidas no sentido de ver nisso uma oportunidade para estimular a economia, em vez de simplesmente substituir o que existia por algo semelhante."

Mas John Mutter sabe que países ricos, como os Estados Unidos, têm, à partida, maiores probabilidades de recuperar mais depressa de desastres naturais, do que, digamos, o Haiti. E depois, há Nova Orleães e o efeito Katrina, que é todo um caso à parte.

"O Katrina foi como uma catástrofe do Terceiro Mundo, tanto no número de vítimas, como por atingir sobretudo pessoas com poucos meios económicos. Nesse sentido, foi uma janela", no interior de um país rico, "para o que acontece nos países pobres".

Mutter publicou ontem um artigo na revista científica Nature sustentando que a recuperação e repovoamento de Nova Orleães, cinco anos depois do furacão Katrina, têm sido desequilibrados, em função do estatuto económico da população. No início desta semana, a televisão americana estreou o documentário de Spike Lee If God Is Willing and Da Creek Don't Rise, uma continuação do fresco que tinha feito sobre Nova Orleães logo após o Katrina - é uma obra furiosa, que mostra como a recuperação da cidade tem excluído a população negra e pobre, e a impotência desta perante os interesses dos "poderes instalados".

Mutter não viu o documentário de quatro horas de Spike Lee, e a sua voz suave ao telefone não tem nada a ver com a fúria vociferante do realizador. Mas não deixa de ser curioso que, usando meios diferentes - um a ciência, o outro o cinema -, tenham concluído o mesmo: a população pobre de Nova Orleães foi a mais afectada, durante e depois do Katrina.

Basta ir a Nova Orleães, ou espreitar no Google Maps, sugere. "Algumas partes da cidade recuperaram bem, a maioria dos edifícios foi reconstruída e as pessoas regressaram. Noutras zonas, onde existiam casas suburbanas, não há casas. De uma forma geral, os bairros onde as pessoas mais pobres viviam não foram reconstruídos. O que revela que quando um desastre natural intervém em lugares onde há uma grande disparidade social, o impacto desse desastre é ainda maior."

Darwinismo social

O título do artigo de Mutter na Nature é: Desastres ampliam o fosso entre ricos e pobres. Os números são explícitos: o bairro mais pobre de Nova Orleães, o Lower Ninth Ward, tem cerca de 24 por cento dos residentes anteriores, ao passo que o repovoamento do mais abastado Central Business District está nos 157 por cento. "Os mais ricos conseguem suportar melhor um desastre natural - não foram eles que acabaram no Superdome [o pavilhão que serviu de abrigo a milhares de desalojados quando o Katrina se abateu sobre a cidade] - e conseguem recuperar mais depressa depois", diz.

O documentário de Spike Lee mostra como bairros sociais que permaneceram intactos após o furacão foram destruídos para erigir projectos destinados a residentes mais endinheirados. "Há uma expressão para isso", diz Mutter, e não é bonita: "captação de elites". O que está a acontecer em Nova Orleães, concorda, é uma espécie de darwinismo social acelerado.

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Comentário + votado

o capitalismo não é solução para os seres humanos

1.- Para a grande burguesia que governa as marionetas do goverbno dos EUA os pobres americanos não ...

joaquim d'odemira

28.08.2010 11:21

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