A assombrosa reacção planetária à morte de Michael Jackson mostra que a cultura pop está inscrita na vida de milhões. Está ligada à maneira dos indivíduos pensarem, agirem e viverem. Não é apenas música. É por isso impossível desligar o cantor da celebridade, da figura, e respectivos contextos onde se moveu.
Mas mesmo assim é inegável que existem dois álbuns que sobreviveram melhor ao tempo do que quaisquer outros. Falamos de "Off The Wall" (1979) e "Thriller" (1982), dois primeiros álbuns da vida adulta do cantor. Antes já havia participado em discos do colectivo familiar, os Jackson 5, e lançado quatro álbuns a solo para a Motown – "Got To Be There" (1972), "Ben" (1972), "Music and Me" (1973), "Forever Michael" (1975) – mas foram discos de aprendizagem, mais impostos que desejados.
É quando lança, em 1979, "Off The Wall", que passa definitivamente de estrela juvenil para superestrela adulta. Em parte, esse amadurecimento deve-o ao produtor Quincy Jones. Até aí, o pai, e também implacável manager Joseph Jackson, dominava os passos da sua carreira. A chegada de Jones alterou a relação de forças à sua volta e Michael Jackson ganhou maior autonomia.
"Off The Wall" não deixa de o manifestar, com uma construção sonora de ritmos inspirados na música disco, guitarras funk, melodias pop e um clima lúdico, possuído por grande vitalidade. Por cima paira a sua voz, tão à vontade na interpretação de baladas como "She’s out of my life" ou em canções de dinâmica rítmica como "Working day and night" ou "Get on the floor".
Se essa obra era a afirmação definitiva, "Thriller", de 1982, é o passaporte para a imortalidade. Nenhum outro disco teve tanto sucesso. Nenhum outro viria a ter. Até hoje 104 milhões de cópias vendidas. Oito Grammys. Três quartos do álbum explorados como singles. Seis deles enormes sucessos instantâneos.
Quando o disco foi lançado, Jackson afirmou que gostava que fosse um disco tão bom e intemporal quanto a suite do bailado "O Quebra-Nozes" de Tchaikovsky. Na época, como hoje, não faltarão os que ironizarão com tal paralelismo. Outros dirão que tal comparação não é possível. Talvez. Mas 26 anos depois, "Thriller" continua uma das obras mais emblemáticas da música popular.
Na época, quando se falava de pop negra, quem personificava a audácia era Prince. Havia ainda desconfiança à volta de Jackson, nos meios mais exigentes, pelo facto de provir da linha de montagem da Motown e ter integrado um grupo desenhado para obter sucesso, os Jackson 5. No entanto, ouvindo-o hoje é difícil não constatar que Jackson e Quincy Jones foram capazes de conceber uma obra ambiciosa, com vocalizações versáteis, da suavidade à rispidez, e uma sonoridade que tem tanto de funk como de rock ou R&B, trespassada pela sensibilidade pop.
Nem tudo sobreviveu ao tempo da mesma forma – "Wanna be startin’ something" ou "Billie Jean" destacam-se pela positiva – mas a maior parte das canções revela ainda uma frescura invejável. Nunca mais a dupla Jackson & Jones foi capaz de brilhar à mesma altura. É essencialmente nesses dois álbuns que sucessivas gerações de melómanos e músicos (Beyoncé, Kanye West, Pharell Williams, Justin Timberlake) se têm inspirado.
Em 1987 viria "Bad", em 1991 "Dangerous" e em 2001 "Invincible". Tudo obras que incluem bons momentos, mas que perdem para aqueles dois álbuns em termos de impacto e coesão. "Bad" seguia a fórmula de "Thriller", transformando-a em qualquer coisa de mais extremo. Os elementos rock quando surgem são mais duros. Os elementos funk de dança mais vincados. Mas as canções, com excepções ("Bad", "The Way you make me feel" ou "I just can’t stop loving you") não exibem a mesma vitalidade, revelando-se algo mecânicas e previsíveis.
Apesar de tudo, o álbum foi um sucesso comercial, daí que tenha surpreendido a mudança de produtor no álbum "Dangerous", optando Jackson por Teddy Riley. É um disco mais arriscado que "Bad", embora sempre tivesse sido menos apreciado, talvez porque saiu em 1991 quando o rock alternativo, e a ideia de autenticidade, tomavam o lugar da pop, da imagem, da representação.


