Passaram-se vários anos em que a jovem Alice se interrogava: "O que é o "eu"? O que é um passado cultural? O que é a origem de uma pessoa?" Talvez por causa disso se tenha tornado artista. "Foi através da arte que me fotografei", diz.
Hoje tem 31 anos e não se importa de não ter as respostas para essas questões. Mas aos 17, 18 ou 19, tudo isso a atormentava. "Achava que devia haver uma verdade. Sentia uma espécie de falsidade, como se houvesse uma coisa em mim que eu desconhecesse."
Faz fotografia, vídeo, escreve e dá aulas de design. Foi também através da arte que procurou responder a uma outra pergunta, colocada por ter nascido em Macau: "Como gerimos as diferenças entre as nossas línguas e as nossas culturas? Questionava as minhas origens chinesas. Os meus pais eram chineses, mas eu estudei numa escola inglesa - aprendi a história da China em inglês". E vivia numa cidade administrada por um país europeu.
Este terá sido o ponto de partida para uma tese sobre multiculturalismo, que desenvolveu no curso de Belas Artes em França, onde viveu oito anos. "Realizei um vídeo de um karaoke em que a música era a Marselhesa, com uma letra em árabe que tinha sido traduzida durante a I Guerra Mundial. E eu era chinesa."
O tema do pós-colonialismo interessou-a também, exactamente por tocar nas questões da identidade. E daqui partiu para uma outra pergunta: como será uma colónia chinesa? Não foi difícil encontrar um exemplo, até porque em França toda a gente tinha o hábito de lhe perguntar: "O que pensas do Tibete?"
Inicialmente Alice Kok não pensava nada, porque este não é um assunto de que se fale na escola, mesmo em Macau. Mas a curiosidade - e esta mania de fazer perguntas a si própria - levou-a a Dharamsala, a região da Índia onde está exilada a comunidade tibetana dirigida pelo Dalai Lama.
"Não sabia nada sobre o budismo. Fui uma católica fervorosa até aos 18 anos. Mas depois não conseguia perceber o sentido da noção de culpa, do pecado, que eram difíceis de aplicar na minha vida diária. Continuava a questionar-me sobre Deus e usava a arte como terapia para a minha dor invisível."
A dor transformou-se em raiva. Decidiu enfrentá-la indo ao encontro dos tibetanos. Sentiu que achou a sua resposta. Não apenas no budismo como religião e elemento unificador da realidade - "as coisas não têm uma identidade que não esteja relacionada com uma outra coisa". Mas também na questão da "humanidade" como "o que está para além de tudo". Da política, da cultura, da língua.
"Macau é muito pequeno e há uma grande concentração de fenómenos", diz. Aplicando os princípios budistas, são todos estes fenómenos juntos que fazem a cidade. Porque a identidade "é uma composição de vários valores, de referências, e existe em termos de energia: como as pessoas vivem, circulam, amam".
Em traços gerais, os casinos, a ânsia do dinheiro, o poder e a política são descrições que servem a Macau, e este será o seu karma. "Mas depois há as particularidades, caso a caso. Uma só pessoa traz muitas especificidades, e temos o discernimento para fazer escolhas".
A identidade não passa de um conjunto de hábitos, diz. "As comunidades sempre viveram lado a lado, numa espécie de harmonia: "Tu não me incomodas e eu não te incomodo". Mas os hábitos perdem-se." Por isso, aquilo que hoje é Macau amanhã pode ser outra coisa.
As mudanças pós-transição aconteceram muito depressa - construção, o boom dos casinos, um ritmo de vida mais acelerado. "Temos mesmo que começar a desenvolver-nos", defende. "Ainda que não seja possível controlar os empresários, podemos alertar as pessoas. Só assim teremos hipóteses de sobreviver como cidade distinta... Nos próximos dez anos, estaremos muito ocupados a construir isso. A minha geração está em posição de agir. A próxima década será nossa.
Texto publicado na Pública de 13.12.2009



