Dizer que há corrupção no Afeganistão dificimente despertará alguma atenção. Dizer que é a actividade mais lucrativa do país logo a seguir à cultura do ópio também não fará levantar sobrolhos.
Que é sempre uma das principais preocupações dos afegãos, superando até por vezes a economia ou segurança, já dá uma ideia da escala do problema, mas ainda assim não é de pasmar. Mas um caso recente surpreendeu toda a gente, mesmo pelos "padrões afegãos": um banco levou a cabo um clássico "esquema de pirâmide" sob os narizes dos auditores internacionais, "investiu" em moradias de luxo numa ilha artificial no Dubai para os seus accionistas, gastou outros milhões em aviões decrépitos, e praticamente ofereceu dinheiro a políticos. Dos mil milhões de dólares "engolidos" pelo Kabul Bank as autoridades afegãs conseguiram reaver 61 milhões, e mesmo quem oferece uma perspectiva mais optimista diz que mais de metade não deverá ser recuperado.
O caso do Kabul Bank é especialmente chocante pela impunidade dos responsáveis (Khalilullah Ferozi, supostamente sob prisão domiciliária, falou na semana passada com o Guardian num dos mais caros hotéis de Cabul), pela opulência das despesas (as casas na ilha artificial no Dubai para os investidores), pela escala (há quem diga que, face à pequena economia do Afeganistão, esta é o maior colapso de um banco na história) e por todas estas irregularidades não terem sido detectadas pelos supervisores internacionais (acreditaram nos registos de contabilidade paralela que os responsáveis do banco lhes mostraram).
O esquema fraudulento do Kabul Bank é ainda importante pelas consequências: neste momento, os dadores esperam pelo "selo de aprovação" do FMI que ainda não chegou - o organismo diz que não há garantias de que casos semelhantes se possam repetir. Se a ajuda estrangeira se mantiver cativa, o Governo afegão começará a ter problemas em pagar aos funcionários públicos já no próximo mês. Isto numa altura em que o Presidente norte-americano, Barack Obama, anunciou uma retirada parcial de dezenas de milhares de soldados (praticamente as que levaram a cabo o reforço de 2009) e que se começa a temer os efeitos desta diminuiição de efectivos.
"Investimento" político
Khalilullah Ferozi foi afastado da liderança do Kabul Bank quando o Banco Central do Afeganistão se apercebeu da extensão das irregularidades, desde empréstimos sem documentos que no fundo eram doações até ao esquema de pirâmide, em que os juros dos primeiros investidores eram pagos com o dinheiro dos investidores subsequentes, necessitando sempre de mais pessoas na "base": um esquema clássico aplicado, por exemplo, por Bernard Madoff nos EUA, no final de 2000, ou por "dona Branca", em Portugal, nos anos 1980.
As irregularidades do banco eram tantas e tão graves que quase se lhes perde a conta. Houve empréstimos feitos sem documentos a pessoas que não pagaram quaisquer juros nem capital - ou seja, não eram empréstimos. O banco emprestou dinheiro sem juros a um dos irmãos do Presidente Karzai, Mahmoud, que usou as verbas para se tornar accionista do banco.
Houve um "investimento" de 4 milhões de dólares na campanha de reeleição de Karzai. "Não os demos de graça", explicou Ferozi ao Guardian. "Com isso conseguimos 430 mil contas do Governo e com elas conseguimos lucros de 4 milhões por mês."
Já antes disso, o banco tinha sido encarregado de pagar os salários dos funcionários públicos afegãos, soldados e polícias - e Ferozi conta que normalmente emprestava este dinheiro ao Banco Central com juros a dez por cento - o Governo afegão acabava, assim, a pagar juros sobre o seu próprio dinheiro.
O banco tinha uma contabilidade paralela que enganou os auditores externos. Os auditores deveriam ter visto vários sinais de alerta (um chegou mesmo a ser ameaçado de morte). Mas nenhum deu qualquer sinal de alarme.



