1. Timothy Garton Ash escreve na sua mais recente coluna do Guardian que “a Europa será o grande ausente” da cimeira do G20 que amanhã decorre em Londres. Haverá cinco representantes europeus sentados à mesa da cimeira: Alemanha, Reino Unido, França, Itália e a Comissão Europeia. Não haverá Europa.
O historiador britânico enumera as razões: divisões, conflitos de interesses, falta de liderança, negação da realidade. Aponta o dedo aos três “grandes” e avisa para as consequências. “Cada vez mais em Pequim e em Washington se ouve falar de um G2.” Apesar da força económica da Europa, já ninguém parece interessado em falar de um G3.
Não é o único a escrever sobre a incapacidade europeia de se erguer à altura da crise internacional e da oportunidade que constitui para os interesses europeus uma nova administração americana cuja visão do mundo é, a todos os títulos, muito mais próxima da sua. Mas é essa a Europa que Barack Obama vai encontrar no seu primeiro grande périplo internacional, que começa hoje em Londres e terminará no dia 7, em Ancara.
Que foi feito, então, das enormes expectativas com que os europeus saudaram a sua eleição?
2. O Presidente norte-americano continua a merecer elevadíssimos níveis de apreço entre os europeus. Os líderes da União que vai encontrar nas três cimeiras – do G20, da NATO e com a UE – e nos vários encontros bilaterais em que participa não perderão a oportunidade de figurar a seu lado. Ouvirá palavras de reconciliação e de renovação da velha aliança transatlântica. Até agora, nenhum líder europeu poderá dizer que ele desiludiu.
As suas decisões em matéria de política externa vieram ao encontro das aspirações da Europa. Anunciou o fecho de Guantánamo. Estendeu a mão a Teerão. Desanuviou as relações com Moscovo. Prometeu empenho no conflito do Médio Oriente. Iniciou a retirada do Iraque e preparou uma nova estratégia para o Afeganistão que leva em conta as preocupações europeias. Colocou as alterações climáticas no topo das suas prioridades, tanto internas como internacionais. Anunciou o regresso da América à cooperação e ao multilateralismo. Riscou a “guerra ao terror” do léxico oficial.
Afastou as suspeitas sobre o seu desinteresse pela velha relação transatlântica. Se enviou Hillary Clinton primeiro à Ásia, ele próprio escolheu o Velho Continente e os velhos aliados para a sua grande estreia mundial.
Depois de ter oferecido tanto, Barack Obama chega à Europa com legítimas expectativas de receber alguma coisa em troca. Vai encontrar uma Europa pouco disposta a cooperar.
O que mudou em tão pouco tempo?
Uma tempestade económica mundial cujos efeitos estão a ser devastadores na Europa. Sobretudo do ponto de vista político.
3. A Europa começou por negar a crise, apontando o dedo à América, dizendo que não era nada com ela. Reagiu em ordem dispersa até conseguir entender-se sobre um mínimo de coordenação entre as diferentes estratégias nacionais para enfrentar os efeitos devastadores da recessão. Falhou na solidariedade em relação aos novos Estados-
membros do Leste. Afastou qualquer hipótese de igualar os Estados Unidos (ou sequer aproximar-se) no esforço de estimular a procura interna e mundial, embora a sua economia seja equivalente à economia americana. Ainda não encontrou uma visão estratégica para sair de uma crise que não deixará nada como dantes – nem em termos económicos nem geopolíticos. Continua a acreditar que, se ficar quieta, a tempestade lhe passará por cima.
Berlim foi o centro desta estratégia defensiva. Paris e Londres tiveram de se posicionar em função das decisões alemãs. O Leste não teve outro remédio senão recorrer ao FMI. Bruxelas faz o que pode.



