A cidade que exibe os seus edifícios como um desfile de chapéus

18.12.2009 - 11:00 Por Francisca Gorjão Henriques, em Macau
À medida que se vão descendo os degraus da calçada o tempo vai perdendo velocidade. Casas amarelas de um lado, casas amarelas do outro, numa construção em dois pisos, ordenada, erguida assim que o século XX bateu à porta. É difícil adivinhar o que se esconde por trás das portadas castanhas de estilo português. Talvez famílias, talvez negócios, talvez jardins porque se ouvem pássaros a cantar.
O Bairro de São Lázaro será o ponto de partida para uma viagem à Macau que se recriou e transformou depois da sua transferência para a China, há dez anos: é lá que o arquitecto macaense Carlos Marreiros tem o seu Albergue, que era da Santa Casa da Misericórdia, e que agora se abriu a artistas. A visita ao futuro começa numa rua do passado - "Estamos "entalados" no Património da Humanidade, que, se os patos-bravos e os governantes não fizerem asneiras, assim ficará", diz o arquitecto cicerone. E recuará ainda mais no tempo para ir até ao Farol da Guia, o primeiro com características ocidentais a chegar ao Oriente, no século XVII.
Vestido de preto dos pés à cabeça, Marreiros não se queixa do vento frio, e puxa de um cigarro atrás do outro enquanto explica: "Este era o ponto mais alto de Macau, com 100 metros de altitude. Com São Paulo do Monte, era a charneira do ponto defensivo da cidade."
Em baixo há um mar de arranha-céus, uma amálgama de betão desordenada e variada, formada por prédios de cinzento decadente, ou espelhados e a reluzir. Um helicóptero pousa na cobertura de um edifício, e os jetfoils riscam velozmente o rio, que antes se enchia de juncos.
"O que mais se alterou desde 1999 foi a escala", diz o arquitecto. "Macau sempre teve um desenvolvimento urbano muito grande [acentuado a partir da década de 1970] e desde 2004, com a consolidação das licenças do jogo, tornou-se uma Las Vegas. Isto fez com que a cidade enfrentasse problemas de gigantismo e investimento financeiro, com a sua resultante física, que é a construção de edifícios."
Novas peles
O Mercedes branco de Marreiros, conduzido por Alberto, um filipino, percorre a pouco amistosa Avenida da Amizade - "a administração portuguesa chamava-lhe o corredor de segurança", diz - e podemos ver onde o dinheiro está concentrado, nem sempre com os melhores resultados arquitectónicos. Olhe-se para o Sands Hotel e a sua torre cilíndrica de espelhos dourados. A definição de Marreiros: "Anos 60 international style de má qualidade."
Também há bons exemplos, ressalva. "Não estou extasiado com nenhum deles, mas são os três mais marcantes." São eles os hotéis Galaxy Starworld (um bloco em forma de U deitado assente num H do qual irrompe um cubo, cheio de vidros e luz, projectado pelo arquitecto de Hong Kong Rocco Yim), e o mais sóbrio Altira, na ilha da Taipa, uma torre virada de frente para a cidade. "Não replicam modelos importados de Los Angeles e reflectem uma cultura arquitectónica contemporânea."
Que se acrescente à lista o Grand Lisboa, "não pela sua beleza, mas pelo seu insólito. Não tem referências. Ou tem todas as referências", corrige.
Pediu-se a um colega de profissão, Mário Duque, que fizesse uma descrição do edifício, obrigando a cabeça a cair para trás de forma a contemplar os seus 228 metros, de alto a baixo, ainda que o gesto deixasse vários transeuntes curiosos: "Imagine-se um ovo Fabergé [deitado] do qual sai um palmito para cima, terminando numa esfera. No conjunto, parece um ananás despenteado, mas admito que possa querer parecer uma flor de lótus. A esfera lá em cima é a parte mais exuberante."
À noite tudo muda de cor, porque há uma bola de cristal junto à base, o tal ovo Fabergé, dotada de luzes LED. "A arquitectura assume a forma do que estiver a ser projectado no ecrã", diz Duque. "O edifício ganha novas imagens sob a sua pele. A forma, elemento inicial, já não é tão importante porque permite variações por via das projecções."


