Os chineses entraram esta semana no Ano do Coelho. Um ano de calma e tranquilidade, que está entre o Tigre e o Dragão, mais intempestivos. Calma é tudo o que os dirigentes chineses desejam neste momento, sem o contágio dos acontecimentos instáveis do Médio Oriente. Por isso as palavras Egipto e Cairo têm estado o mais possível arredadas dos noticiários.
Temendo que as revoltas a favor da reforma política no país mais populoso do mundo árabe possam ser imitadas, o regime chinês tem tentado evitar que as imagens de multidões e tanques na rua sejam difundidas.
"É uma história altamente sensível para o Governo e traz memórias de 1989", quando os tanques rolaram na Praça de Tiananmen para esmagar as manifestações pró-democracia, comenta à Reuters Li Datong, ex-jornalista demitido por desafiar a censura. "Certamente que eles tentam limitar a cobertura e ficarão nervosos com as fotografias de soldados misturados pacificamente com manifestantes sem abrir fogo contra eles."
Na terça-feira, quando se escrevia a palavra "Egipto" nos congéneres chineses do Twitter (bloqueado na China desde 2009), a resposta era: "Segundo as leis em vigor, o resultado da sua pesquisa não pode ser comunicado".
O Governo não negou explicitamente que a informação estava a ser restringida: o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Hong Lei, limitou-se a dizer que "a Internet na China está aberta".
A Economist recorda que quando foi o colapso da Europa de Leste, há 20 anos, eram escassas as notícias que apareciam nos media e o departamento de propaganda do Partido Comunista ordenou vigilância apertada junto às máquinas de fax.
Desta vez, terá instruído secretamente os órgãos de comunicação social a usarem apenas os despachos da agência oficial Xinhua, a reduzirem as notícias do que se passa no Egipto e, por outro lado, a salientarem as que dizem respeito aos efeitos adversos da contestação. Pode-se noticiar as "nobres tentativas do Governo" de resgatar os turistas chineses no território egípcio, mas "mostrar simpatia para com os manifestantes é tabu", adianta a revista britânica.
Protestos aumentam
As manifestações contra a corrupção ou má governação não param de aumentar de ano para ano. Tal como os protestos a favor de melhores condições laborais ou ambientais. Não há uma oposição organizada, mas tem havido iniciativas de contestação política. Por exemplo, a Carta 08, criada, entre outros, pelo Nobel da Paz Liu Xiaobo (e assinada por mais de três mil pessoas). Ou o artigo que 23 antigos responsáveis ligados ao PCC publicaram em Outubro a pedir a abolição da censura e liberdade de imprensa.
"Eles estão nervosos", comenta ao Christian Science Monitor Xiao Qiang, que monitoriza a Internet chinesa na Universidade da Califórnia, em Berkeley. "Estão a apertar mais do que é habitual para garantir que apenas está lá a versão da Xinhua."
Para além do princípio de não-ingerência fazer parte da diplomacia chinesa, e do desconforto de ver um regime autoritário, como o seu, à beira do colapso, Pequim não pode senão cruzar os braços porque a sua influência na região é reduzida.
"A China está preocupada com o caos, porque isso é mau para o Egipto e para outros países", afirma Yin Gang, especialista em Médio Oriente da prestigiada Academia Chinesa de Ciências Sociais, ao CSM. "A preocupação da China é a mesma que a dos Estados Unidos... Mas a China tem pouca influência no Médio Oriente."
Hong Lei limitou-se a dizer na conferência de imprensa que Pequim "considera o Egipto um amigo" e "espera que o Egipto regresse à estabilidade e à ordem o mais cedo possível".



