O jornal O Independente sairá amanhã para as bancas pela última vez, depois de falhadas duas tentativas de encontrar um novo investidor. O anúncio foi ontem feito à redacção pela directora, Inês Serra Lopes, também ela accionista do título, com uma quota que ronda os 20 por cento. Contactada pelo PÚBLICO, a directora recusou-se a fazer comentários, apenas confirmando o encerramento.
O próximo passo é pedir a insolvência da empresa, perceber se a marca Independente ainda tem algum valor de venda, e depois abrir falência. O jornal tem 25 funcionários, entre jornalistas e administrativos. Foi lançado em 1988 sob a direcção de Miguel Esteves Cardoso, com Paulo Portas como director adjunto e Manuel Falcão no cargo de subdirector.
A continuidade do título estava dependente de conseguir um novo investidor de emergência, depois de Alberto do Rosário não ter exercido o direito de opção de compra até ao passado dia 24 como estava definido, disse anteontem ao PÚBLICO fonte da direcção. Este investidor alternativo, que surgiu no final da passada semana, decidiu ontem também não avançar e Inês Serra Lopes acabou por ter que tomar a decisão de fechar o semanário já a partir de amanhã.
Desde Janeiro decorreram negociações encabeçadas por Alberto do Rosário, gestor que fez toda a sua carreira nos media, sobretudo na Lusomundo. Na altura, a administração aprovara a sua proposta de comprar a empresa por um euro e assumir o seu passivo, cujo valor se desconhece, disse ao PÚBLICO Luís Montez, que tem uma pequena participação na empresa.
Mas o processo arrastou-se até agora, supostamente, segundo o investidor, porque havia muitos accionistas e estes estavam divididos. Alberto do Rosário pretendia reabilitar o semanário e gostava de poder contar com uma participação de 20 por cento da Cofina - apesar de o grupo de Paulo Fernandes nunca se ter comprometido oficialmente.
O Independente atravessa dificuldades financeiras há alguns anos - mais ou menos desde que Paes do Amaral abandonou a empresa -, devido à queda da publicidade e das vendas. Desconhece-se qual o valor da dívida acumulada, mas, além das dívidas ao Estado em impostos, a empresa acumula também faltas de pagamentos a fornecedores (de papel e seguros, por exemplo) e tem a correr em tribunal vários processos de indemnizações. Além disso, tem uma acção de despejo desde o final de Junho, no valor de 185 mil euros. Segundo a APCT, O Independente caiu 22,9 por cento no primeiro trimestre deste ano, com vendas médias de 9392 exemplares por edição.
"É pena que o jornal feche. Há espaço para um semanário um pouco mais à esquerda porque o Expresso e o Sol são vincadamente de direita e O Independente podia vir a assumir esse papel. Mas entendo que seja muito difícil sobreviver fora de um grupo", afirma Luís Montez.
Para Manuel Falcão, o desaparecimento do semanário que no início da década de 90 vendia perto de 100 mil exemplares, irá "reduzir o leque de diversidade da imprensa em Portugal", acrescentando, citado pela Lusa, ser "um sinal dos tempos políticos que correm". Também Luís Nobre Guedes, que era presidente da administração na altura, lamentou que não tenha sido possível viabilizar o projecto.
Para o Sindicato dos Jornalistas, com o fim do Independente "desaparece um semanário singular que marcou a história do jornalismo e o percurso de muitos jornalistas. O seu fim é mais uma página triste no livro negro da imprensa portuguesa."


