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Representação feminina nos media

Redacções têm mais mulheres mas poucas em lugares de chefia

08.03.2005 - 09:41 Por Carlos Pessoa, PÚBLICO

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O número de mulheres nas redacções dos media aumentou 20 por cento nas duas últimas décadas, representando cerca de 39 por cento dos jornalistas com carteira profissional. "É um sinal muito positivo numa luta pela democracia genuína na sociedade em geral e nas instituições dos media em particular", afirma Maria João Silveirinha, professora do Instituto de Estudos Jornalísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, num artigo publicado na última edição da revista Media & Jornalismo (Outono-Inverno 2004).
A imprensa de referência dá espaço a temas que as redacções mais "masculinas" não tratam A imprensa de referência dá espaço a temas que as redacções mais "masculinas" não tratam (DR)

A má notícia é que essa realidade não significa que "partilhem os mesmos direitos e as mesmas responsabilidades", sobretudo nos lugares de chefia. Além disso, afirma a investigadora, "a presença das mulheres na produção dos textos mediáticos (tal como na sua audiência e no seu conteúdo)" também dificilmente faz "a diferença que as mulheres há muito reclamam".

"O jornalismo trabalha sobre a realidade social. Se esta é desigual e hierarquizada do ponto de vista da mulher, a jornalista não pode deixar de ser confrontada com isso", declarou ao PÚBLICO. Dá um exemplo: em Portugal, há poucas mulheres na política, realidade que a jornalista dificilmente pode mudar de forma directa. No entanto, está sempre ao seu alcance "ouvir mais mulheres, procurando outras fontes de informação fora dos habituais centros de decisão".

O fenómeno da "feminização" e da "juvenilização" do jornalismo - consequência directa da evolução das mulheres para crescentes níveis de escolarização ao nível superior - levou os mais optimistas a acreditarem que o trabalho das mulheres nos media contribuiu para "uma redução dos problemas de representação que muitas mensagens mediáticas colocam". Maria João Silveirinha discorda: "Se analisarmos uma notícia, muito dificilmente vemos se ela é escrita por um homem ou por uma mulher." Para esta situação concorrem dois factores: a objectividade imposta à prática jornalística, e a rotina profissional, traduzida na selecção das notícias e na escolha das fontes ouvidas para a respectiva construção. Tudo somado, escreve a articulista, "a abordagem "objectiva" à profissão leva as mulheres jornalistas a interiorizarem um conjunto de regras como próprias da profissão: o que é importante é a informação oferecida e não está em causa alguma eventual perspectiva de género sobre essa informação".

Perante estas condicionantes, o que pode fazer uma mulher jornalista? "Depende dos projectos editoriais", responde Maria João Silveirinha. "A imprensa de referência - é o caso do PÚBLICO - dá espaço às mulheres para elas tratarem certos temas que as redacções mais "masculinas" não tratam". Mas, adverte, "não se pode exigir às mulheres que elas, só por si, façam a situação mudar, pois a sua participação no jornalismo faz parte de um processo mais vasto de participação das mulheres na vida colectiva".

A investigadora e professora universitária rejeita qualquer ideia de "tomada do poder" subjacente à luta por uma representação mais justa e equitativa da mulher. O objectivo final é criar uma sociedade mais equilibrada, para a qual as mulheres contribuem hoje "muito pouco". A importância do trabalho feminino nas redacções salta imediatamente à vista: "As jornalistas podem trazer às redacções olhares e perspectivas diferentes, mas que não são melhores nem piores do que as dos homens jornalistas."

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