Prisa nega interferência no fim do Jornal de Sexta, Sócrates admite prejuízo para o PS

04.09.2009 - 08:25 Por Maria Lopes, Leonete Botelho, com Luciano Alvarez e Nuno Ribeiro, em Madrid
O grupo espanhol Prisa negou hoje qualquer interferência na decisão que levou à suspensão do Jornal Nacional de Sexta-feira da TVI, de Manuela Moura Guedes, depois de, ontem à noite, José Sócrates se ter pronunciado sobre o caso, admitindo que este caso pode prejudicar o PS nas legislativas do próximo dia 27.
A questão dividiu ontem as opiniões durante todo o dia, mas a decisão estava tomada.
Cerca das 13h00, a direcção de informação do canal comunicou ter apresentado a sua demissão em consequência de a administração ter decidido pôr fim ao Jornal Nacional de Sexta (JN6) por alegadas razões financeiras. A demissão foi rapidamente aceite pela administração da empresa, a qual, no entanto, demorou quase sete horas a emitir um comunicado a justificar a decisão. A alteração da grelha de programação, disse, deve-se à intenção de "homogeneizar e reforçar a consistência do Jornal Nacional ao longo de toda a semana". E prometeu que a mudança "em nada irá alterar o compromisso da TVI em prestar informação de qualidade e interesse nacional".
Informações ontem recolhidas pelo PÚBLICO e por outros órgãos de informação apontam para que a decisão de acabar com o JN6 veio de Espanha há vários dias, dado que o spot de promoção estava feito desde a semana passada e nunca foi para o ar. Só chegou à direcção na terça-feira, mas não foi divulgada porque o administrador Bernardo Bairrão estava a tentar que a Prisa mudasse de ideias. Nada feito: Moura Guedes acabou por ter a confirmação ontem de manhã. Para hoje, estava preparada uma peça de uma jornalista da equipa com "dados novos e documentados" sobre o Freeport, confirmou a pivot.
Hoje de manhã, contudo, fonte oficial da Prisa contactada em Madrid pela Agência Lusa, garantiu que se tratou antes de uma decisão "que se insere no âmbito da gestão da direcção da cadeia [de televisão] e com o envolvimento da Direcção-Geral da Media Capital". "Quando se coloca à frente de uma empresa uma equipa de direcção temos que respeitar a sua decisão. E isso é tudo", acrescentou.
A mesma fonte rejeitou ainda notícias de que o próprio conselheiro delegado da Prisa, Juan Luis Cebrián, se tenha envolvido directamente no caso, insistindo que a Prisa "respeita a independência de gestão" de todas as suas empresas. "O conselheiro delegado tem o papel de marcar as directrizes gerais da empresa, definir por exemplo se vamos ou não reforçar a presença neste ou naquele país. Mas quando há uma empresa [Media Capital] que tem uma direcção-geral e um conselheiro delegado, são eles que gerem essa companhia", explicou. Mais: seria impensável, insistiu a fonte, considerar que cada decisão que se toma pelas empresas do grupo Prisa tivesse que passar pelo crivo da sede em Madrid. "A posição da Prisa é respeitar e confiar nas decisões das suas equipas de gestores, neste caso da TVI e da Media Capital".
Refira-se que Juan Luis Cebrián integra, como membro não-executivo, a administração da Media Capital. Os administradores executivos são Bernardo Bairrão, que se terá oposto à decisão,
Miguel Gil e Juan Herrero. Jaime Pinho d'Almeida é o presidente do CA. Todos os outros administradores não executivos são espanhóis indicados pela Prisa: Manuel Polanco, Tirso Olazábal e Pedro Garcia Guillén.
Ontem notícia caiu como uma bomba em terreno minado. A oposição em uníssono falou em pressões políticas, expressas ou implícitas, depois de meses de tensão entre o Governo e a estação então dirigida por José Eduardo Moniz. Se BE e PCP foram cautelosos e se limitaram a dizer que o caso não podia ser retirado do contexto das relações entre o executivo e a TVI, já o CDS classificou-o de "censura" e o PSD afirmou que "Portugal e a democracia estão de luto".
"Um escândalo", disse Moniz, que saiu do canal em Agosto e é agora administrador da Ongoing, empresa que tem manifestado interesse na compra e controlo da Media Capital, subsidiária do grupo espanhol Prisa, proprietária da TVI.

