O que significa Perdidos para a TV, para os fãs e para o Presidente dos Estados Unidos

02.02.2010 - 10:44 Por Joana Amaral Cardoso
Um olho abre-se repentinamente. A pupila contrai-se. Bambu e gritos, mar ao longe. O dia: 22 de Setembro de 2004. O olho: é de uma das personagens principais, Jack Shepard. O local: ainda não sabemos bem. Nasciam um culto de massas e uma série cujo efeito se fez sentir ao longo de seis anos – audiências em queda, mas líder nas gravações; uma comunidade virtual fervorosa; uma intriga multiplataformas; números de downloads que convidam os operadores a estreitar cada vez mais os intervalos entre as estreias nos EUA e no resto do mundo. Isto é Perdidos.
E depois há Barack Obama. A Casa Branca ponderava marcar o discurso do Estado da União, tradicionalmente das 21h às 23h no final de Janeiro, para hoje à noite – de forma a tentar reunir mais trunfos para apresentar, como a aprovação da reforma do sistema de saúde. Mas esta noite é o princípio do fim de Perdidos. O discurso anual lá se realizou na semana passada, não sem que a Internet e a sua forte componente de fãs de Perdidos tivesse pedido prioridade para a série da ABC, agendada para a mesma hora.
O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, esclareceu, no início de Janeiro: “Não prevejo um cenário em que milhões de pessoas que esperam finalmente ter algumas conclusões com Perdidos sejam rasteiradas pelo Presidente.” E acrescentou, citado pelo Washington Post: “Podem citar um alto responsável da Administração.” Os criadores da série regozijaram-se no Twitter: “Obama recuou! O dia é nosso!!!”, escreveu Damon Lindelof; “Em troca de mudar o discurso, eu e o Damon prometemos responder a QUAISQUER questões que o Presidente tenha sobre Perdidos”, brincou Carlton Cuse. Se Perdidos é mesmo assim tão importante, é uma questão válida. Afinal, é “só” uma série de TV.
Cultura de convergência
Este soluço ficará na história pop de Perdidos, tal como ficará a festa de sábado, com 12 mil fãs reunidos a convite da ABC numa praia havaiana para ver o primeiro episódio e encontrar os colegas da Internet com quem falam há seis anos. Perdidos tem uma audiência média de 14 milhões de espectadores, números que têm caído a cada época ao mesmo tempo que sobem no top de gravações digitais e downloads (foi a série mais pirateada no BitTorrent em 2008 e a segunda em 2009 – a primeira foi Heróis).
Sintoma 2.0 é o efeito Perdidos, que fez com que FlashForward, por exemplo, se tenha estreado mundo fora dias depois de ter arrancado na ABC. E que faz com que a sexta tranche de 18 episódios de Perdidos chegue já dia 9 ao canal Fox – e que amanhã os clientes Meo tenham os primeiros capítulos no Videoclube do operador. São eventos televisivos mesmo que não sejam vistos de forma tradicional.
A série mais complexa da actualidade – só equiparável a Sob Escuta, a preferida de Obama – “terá contribuído bastante para o advento da Cultura de Convergência”, defende o professor de Televisão e Cinema David Lavery ao P2. Refere-se à teoria e livro de Henry Jenkins, director do programa de estudos comparativos de media do MIT, que acredita que os novos media vão integrar-se com os velhos ao invés de substituí-los.
Contudo, Perdidos é, acima de tudo, uma narrativa cujo contexto das personagens é fornecido a conta-gotas, juntamente com física, religião, mitologia, teoria política e literatura – um dos seus seguidores é o físico Stephen Hawking, que partilha o apelido com uma das personagens. “A maior das demandas geek está a chegar ao fim”, comenta Jeff Jensen, colunista da Entertainment Weekly. Nas últimas semanas, publicações de todo o mundo compilam listas de perguntas a que esta última temporada tem de responder.
Afinal, esse é um dos dois principais ganchos da série: o mistério, os enigmas, o esquema de um de um gigantesco quiz, aliados ao drama de personagem. E estes ingredientes entrelaçam-se em torno das mais básicas dicotomias – bem/mal, preto/branco, factos/fé, ciência/religião, acaso/destino. É herdeira de Twin Peaks, mas David Lavery, co-autor de Lost’s Buried Treasures, Unlocking the Meaning of Lost e Full of Secrets (sobre Twin Peaks), argumenta que a complexa teia de Perdidos torna a série de David Lynch “pura simplicidade”.

