Meses de rumores antecederam o negócio

Novela da compra da TVI pela PT envolta em contradições

06.02.2010 - 09:02 Por Inês Sequeira, Ana Brito

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O Presidente da PT negou sempre o interesse da operadora em voltar ao sector dos conteúdos mas acabou por avançar para um negócio... que não se fez.

A novela de compra da TVI pela PT começou em Junho, mas foi antecedida de vários meses de rumores, sempre desmentidos pela operadora de telecomunicações, de que esta poderia estar interessada no negócio. O próprio presidente executivo da PT, Zeinal Bava, negou sempre o interesse da operadora em voltar ao sector dos conteúdos.

Já há muito que se sabia que a espanhola Prisa tinha posto à venda uma fatia da Media Capital (MC) (dona da TVI) para conseguir reduzir a dívida de cinco mil milhões de euros. Quando, no final de Junho, surgiram as primeiras notícias da alienação de 30 por cento do grupo à PT, surgiram também rumores de que a operadora espanhola Telefónica estaria interessada no negócio. Mas a venda à PT foi dada como certa. O valor de 150 milhões de euros apontado na imprensa nunca foi confirmado oficialmente, e sem nunca abrir muito o jogo, a PT lá foi adiantando que a compra de um terço do capital da MC era "mais que uma participação financeira", embora não lhe desse controlo sobre o grupo, que continuaria a ser maioritariamente detido pela Prisa.

Em comunicado enviado à CMVM, a 23 de Junho, a operadora confirmou finalmente, e formalmente, a existência de negociações com a Prisa. Isto dois meses após Zeinal Bava ter afirmado, em entrevista ao Correio da Manhã, que "a PT não vai produzir conteúdos", dando indicação de que a entrada numa estação televisiva estava fora de questão.

Dois dias depois, foi a vez de os espanhóis darem conta das negociações, num comunicado onde garantiam que o negócio visava "mútuo interesse empresarial" e onde o próprio director-geral da TVI, José Eduardo Moniz, destacou as vantagens da ligação da MC "a uma empresa de telecomunicações de grande dimensão."

A PT tinha saído dos conteúdos em 2005, com a venda da Lusomundo a Joaquim Oliveira, mas, num contexto em que o negócio das telecomunicações passou a estar dependente da oferta de televisão paga - com a PT a disputar, através do Meo, a liderança do mercado à Zon TV Cabo - os conteúdos tornaram-se mais-valias.

Isso mesmo disse Zeinal Bava no programa da RTP1 Grande Entrevista, a 25 de Junho, horas depois de Cavaco Silva ter manifestado dúvidas quanto aos contornos do negócio Prisa/PT, apelando à transparência e exigindo explicações à operadora. "O nosso negócio transformou-se, decidimos apostar na televisão, através do Meo, e agora precisamos de dar aos nossos clientes mais e melhores conteúdos", explicou o gestor na RTP 1. Referindo-se às críticas dos partidos da oposição sobre o facto de a operadora, onde o Estado tem uma golden-share (conjunto de acções que lhe garantem poderes especiais na empresa), estar a ser usada com fins políticos, reagiu com veemência: "Qualquer sugestão de instrumentalização é um insulto."

No dia seguinte, Sócrates puxou o tapete à PT, vetando a operação. "O Governo não quer que haja a mínima suspeita de que esta compra de parte da TVI se destina a qualquer alteração na sua linha editorial", declarou, no Parlamento, a 26 de Junho.

No final do Verão, a compra da TVI voltou a ser notícia. A 28 de Setembro a Ongoing (accionista de referência da PT, com cerca de 7 por cento do capital) acordou com a Prisa a compra de 35 por cento da MC, por 122 milhões de euros. O grupo é dono do Diário Económico e do Brasil Económico, está prestes a lançar um canal de informação económica, e tem quase 23 por cento da Impresa (dona da SIC), embora tenha posto esta participação à venda - condição para a ERC aprovar a entrada na MC.

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