"New York Times" publica primeiro artigo subsidiado pelos leitores

13.11.2009 - 18:57 Por Ana Machado
Chama-se Spot.Us e é uma organização não lucrativa que tem como objectivo arranjar financiamento para tornar possível trabalhos jornalísticos que de outro modo não veriam a luz do dia. Gostava de ler um artigo sobre o grande tapete de lixo do Pacífico? Os leitores do site Spot.Us disseram que sim. E os donativos fizeram com que o artigo chegasse às páginas do "New York Times".
"Olá, sou Lindsey Howshaw e voltei há um mês de uma viagem a um grande tapete de lixo no Pacífico". A apresentação da jornalista no site Spot.Us acaba com um agradecimento a todos os que apoiaram a história que conseguiu publicar esta semana no "New York Times". Ao todo, o Spot.Us conseguiu reunir seis mil dólares, oriundos de cerca de cem leitores interessados na história, entre os quais Craig Newmark, fundador da Craiglist, e Jimmy Wales, co-fundador da Wikipedia, conta o diário espanhol "El Pais".
Esta é a primeira vez que um artigo subsidiado pelos leitores, nascido no âmbito deste projecto e apoiado por instituições como a Knight Foundation, chega a um jornal de grande circulação. "Tornaram realidade esta ideia", agradece Lindsey. A ideia de subsidiar a investigação jornalística através da filantropia é defendida por muitos teóricos dos media, entre eles o investigador brasileiro Rosenthal Calmon Alves, a leccionar na Universidade do Texas em Austin, que acha que esta seria uma saída para garantir que os jornais não deixam de oferecer uma boa informação aos cidadãos em tempo de crise.
Orlando César, presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, encara esta ideia - a do jornalismo feito com donativos dos leitores - como "uma boa ideia para dar a conhecer boas causas e até para empregar jornalistas e fazer com que possam mostrar o seu trabalho", não estando longe do princípio dos conteúdos pagos: "Os leitores também pagam em antecipação para ler os artigos do jornal". Mas deixa um alerta: "Tem de se assegurar a garantia de independência".
Lindsey Howshaw, estudante de jornalismo de ambiente da Universidade de Stanford, recorreu ao Spot.Us para agarrar a oportunidade de subir a bordo de um navio que iria estudar o impacto na fauna do maior tapete de lixo do Pacífico - um amontoado de plástico, com restos de lixo como linhas de pesca, escovas de dentes, pauzinhos de chupa-chupa e milhões de partículas de plástico que se estendem ao longo de dezenas de quilómetros a nordeste do Havai e que duplica de tamanho a cada dez anos. Este lixo entra na cadeia alimentar através dos peixes que dele se alimentam. A proliferação de partículas plásticas chega a ser seis vezes maior do que a de partículas de plâncton, lê-se no artigo.
Encontrado por acaso pelo investigador Charles Moore há 12 anos, o tapete de lixo do Pacífico é apenas um de vários. Trata-se de um fenómeno de poluição extrema concentrada devido ao efeito de correntes gigantes que ali ocorrem, concentrando a poluição. Existem pelo menos mais duas situações parecidas, uma na costa do Japão e outra no Mar dos Sargaços, no Atlântico Norte. Os cientistas acreditam que existam também noutros locais, mas Moore diz que nenhum é tão grande como o do Pacífico.

