Manuela Moura Guedes: "É impensável numa democracia que o Governo se escuse a ir a um jornal"

03.09.2009 - 11:06 Por Maria Lopes
Depois da saída de José Eduardo Moniz, julgou-se que Manuela Moura Guedes estaria por um fio na TVI. Amanhã volta com o seu Jornal Nacional de Sexta-feira, alvo de uma chuva de críticas, do Governo aos reguladores - que ela também nunca poupa na resposta. Faz finca-pé na filosofia que cultiva no jornal e no seu estilo frontal - é impossível ficar imune ao que se está a noticiar, garante.
Há alguma mudança no formato ou filosofia do Jornal Nacional de Sexta-feira?
Não, só fez férias. Um jornal é um jornal, não tem muito que se lhe diga.
É um semanário e há um tratamento e apresentação diferente das notícias se forem emitidas no Jornal de Sexta ou de outro dia.
Este jornal tem uma linha editorial nítida: é completamente directo, não faz rodriguinhos. Os jornalistas que o fazem confrontam e questionam as pessoas das reportagens de maneira directa e sem qualquer tipo de rodeios, têm a mesma forma de abordagem das notícias. As peças, porque são de mais investigação, exigem um tratamento muito mais duro.
Porque trata histórias mais delicadas? Guardam-se exclusivos para o Jornal de Sexta?
Há quem tenha ideia que por serem histórias mais delicadas é preciso ter rodeios. Não há histórias delicadas: as histórias ou são verdadeiras ou não são, ou conseguimos prová-las ou não. Se sim, há que as pôr no ar, questionar sem rodeios e de modo a que as pessoas as percebam. Em jornal de televisão não dá para voltar atrás, não só o próprio tem que nos perceber como as pessoas que estão em casa têm que nos perceber. A pergunta tem que ser breve, concisa e directa, frontal.
Se é subdirectora de informação, por que não há essa filosofia nos outros dias?
Porque há editores intermédios, eu não consigo estar em tudo, não consigo incutir em toda a gente - e também não sei... nem toda a gente tem essa facilidade de fazer este tipo de coisas. Há pessoas que têm mais dificuldade de fazer este tipo de abordagem.
Essa frontalidade tem-lhe trazido sempre problemas.
Teve altos e baixos. Enfim, não há nenhum político que me ligue, não me lembro, há anos, de falar com um assessor. Não tenho esse tipo de contactos, também não preciso deles. Posso até dar lições de como fazer jornalismo sem falar com eles senão na altura da confrontação pública, do contraditório.
Nunca conseguiu ter ninguém do Governo no seu jornal.
Não, nenhum, nem percebo porquê.
Isso é uma ironia.
Não, não percebo. Porque é impensável numa democracia, num país europeu, pseudo-desenvolvido, que um Governo, todo ele, se escuse a ir a um jornal tendo recebido dezenas e dezenas e dezenas de convites. Quando digo dezenas é mesmo dezenas. Obviamente que há ministros que não foram convidados, mas são raros. Nós temos uma contabilização, eu já perdi a conta.
Porque têm orientações?
Não querem, obviamente. Tive alguns secretários de Estado. As pessoas esquecem-se que o Governo tem responsabilidades públicas de dar resposta aos cidadãos.
E o contraditório?
Depois da ERC, que pseudo-regula a actividade dos órgãos de comunicação social, dizer que este jornal que não fez o contraditório, tenho pena hoje de não dizer em cada uma das peças que não tivemos resposta. Sou presa por ter cão e presa por não ter. Se dissesse em cada peça que questionámos mas o Governo ou a administração pública não falou diziam que estava a fazer campanha contra o Governo, a provocar. Se não digo é porque não fazemos o contraditório. O Governo nunca fala para este jornal e portanto o contraditório é impossível.
Até que ponto isso condiciona a equipa?
Nós já temos o maior zelo em tudo o que fazemos. Condicionou-nos neste ponto, não no que era essencial. Tenho sempre que pensar duas vezes no que vou dizer.
Já pensou em desistir, ir embora?
Há alturas em que fico um bocado farta desta gente, mas ainda não ao ponto, pelo menos ultimamente, de dizer que me vou embora. Mas chega a uma altura é que o cansaço é muito grande e começo a pensar "será que vale a pena?"
E tem valido?

