Um jornalista sueco foi morto hoje, a tiro, em Mogadíscio, durante uma manifestação organizada na sequência da assinatura de um acordo de reconhecimento mútuo pelo Governo da Somália de transição e pela União dos Tribunais Islâmicos, como se designa o grupo associado às milícias islâmicas, que controlam a capital.
O jornalista Martin Adler, de 47 anos, foi abatido por um indivíduo, quando assistia a uma manifestação que reuniu perto de 4000 pessoas em apoio aos tribunais islâmicos no sul da capital somali. De acordo com uma testemunha, que falou à AFP, sob condição de anonimato, a morte do repórter “não foi um acidente”, mas “uma morte deliberada por alguém que pretendia matar um jornalista”.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros sueco já confirmou, em comunicado, a vítima foi identificada como sendo “Martin Adler, fotógrafo e cidadão sueco”. Adler, que já tinha estado em trabalho na Tchetchénia, Afeganistão e Irão e recebido o Prémio Rory Peck Trust, em 2004, trabalhava para o tablóide sueco “Aftonbladet”.
O presidente dos Tribunais Islâmicos em Mogadíscio, o xeque Sharif Sheikh Ahmed, já condenou a “morte bárbara”, afirmando que os responsáveis serão punidos. “Expresso as minhas condolências à família do defunto, ao país e ao media para o qual trabalhava”, acrescentou o responsável, sublinhando que quem assassinou o jornalista “não representa a população de Mogadíscio nem os tribunais islâmicos ou o povo somali”. O responsável pela morte do repórter ainda não foi identificado.
Adler tinha chegado a Mogadíscio há cerca de uma semana, segundo o pessoal do hotel onde estava hospedado. É o primeiro representante da imprensa estrangeira morto na Somália em mais de um ano, depois da morte, a 9 de Fevereiro de 2005, de Kate Peyton, 39 anos, jornalista britânica da BBC. Peyton foi assassinada poucas horas depois de ter chegado a Mogadíscio.
Entre 1993 e 1995, período mais crítico da guerra civil, foram mortos na Somália nove jornalistas estrangeiros.
Os tribunais islâmicos controlam desde o início do mês grande parte da capital somali, após as suas milícias terem desafiado os chefes de guerra que controlam a cidade desde o início da guerra civil em 1991. Na última semana, durante uma manifestação, vários milhares de pessoas expressaram a sua hostilidade aos Estados Unidos e a toda a tentativa de intervenção estrangeira na Somália.
Mogadíscio recebeu igualmente com cepticismo o acordo assinado ontem, em Cartum (Sudão), entre o Governo de transição e a União dos Tribunais Islâmicos, no âmbito de uma mediação árabe. O acordo estipula “o reconhecimento da legalidade do Governo de transição e a presença da União dos Tribunais Islâmicos”.
Este acordo foi, porém, bem recebido pela maioria da comunidade internacional. A União Africana considerou-o como “uma muito boa notícia”, enquanto os Estados Unidos, que apoiaram financeiramente a aliança dos chefes de guerra derrotada pelos tribunais, qualificaram o acordo como o “primeiro passo positivo no que será um longo processo para chegar à paz” na Somália.


