Jornal “O Primeiro de Janeiro” não sai sábado e redacção foi demitida em bloco

31.07.2008 - 21:45 Por Luís Miguel Queirós, Ana Cristina Pereira
A desconfiança pairava na redacção. Os jornalistas temiam o pior quando a directora de “O Primeiro de Janeiro”, Nassalete Miranda, hoje convocou uma reunião geral. “O jornal vai fechar”, comentava-se em surdina. Não foi bem isso. Miranda disse que o jornal seria suspenso durante o mês de Agosto, e que era preciso “tempo para a modernização”.
Os trinta trabalhadores seriam despedidos em bloco. Nenhum teria direito a receber uma indemnização. Accionar-se-ia o fundo de garantia salarial. Os que desejassem seriam contratados para a nova empresa, o novo jornal seria feito com uma equipa mais ou menos do mesmo tamanho. E a aposta continuaria “a ser no noticiário do Porto, da região Norte e da cultura”.
Sábado “O Primeiro de Janeiro” já não sai. Nervosos, os trabalhadores arrumaram as suas coisas dentro de caixas. À porta, fumavam-se muitos cigarros, discutia-se muito o futuro. Há quem ali já trabalhe há 14 anos.
Jornal histórico e centenário
Ao mesmo tempo, na empresa que trata dos cadernos especiais e da publicidade do jornal, era apresentado um novo projecto que mantinha o título d’ “O Primeiro de Janeiro”. O periódico renasceria com novo grafismo e com um aumento de tiragem de 20 mil para 50 mil exemplares. Foi mesmo mostrado o novo cabeçalho, no qual se faz referência aos 140 anos do título e se inclui o slogan “ontem, hoje, amanhã”.
A aparente contradição entre o despedimento em bloco da redacção e o anúncio do novo projecto leva alguns jornalistas a admitir que possa estar a ser preparada a conversão do Janeiro em gratuito.
Há trabalhadores que não receberam as ajudas de custo de Junho; tão pouco o salário, as ajudas de custo de Julho, sequer o subsídio de férias. Há um mês, a directora “convidou” cinco jornalistas a sair – tais demissões não chegaram a ser negociadas ou oficializadas.
Por volta de Abril/Maio, vários trabalhadores receberam intimações das finanças para pagar IRS referente a “ajudas de custo”. As finanças tinham feito uma fiscalização e detectado uma suposta prática de pagamento irregular. No recibo de ordenado constava 493 ou 510 euros; o resto, que podia ser um valor semelhante, entrava como “ajudas de custo”. Na terça-feira, houve uma inspecção de trabalho na redacção, que também detectou insalubridade.
Fundado a 1 de Dezembro de 1868, por alguns dos promotores da revolta portuense da Janeirinha, que eclodira em Janeiro desse ano, “O Primeiro de Janeiro” começou por ser o órgão do Centro Eleitoral Portuense.
Deve-se a um comerciante enriquecido no Brasil, Gaspar Ferreira Baltar, que assumiu a orientação do matutino em 1870, o impulso que transformou uma folha ideológica num diário de grande informação. Mas o grande responsável pela “idade de ouro” do jornal foi sem dúvida Manuel Pinto de Azevedo, que dirigiu o Janeiro durante 40 anos, de 1936 a 1976.
Mais de cem mil exemplares
Liberal convicto, impôs durante a Segunda Guerra uma linha editorial favorável à causa dos Aliados. O jornal revolucionou a imprensa da época, dando grande atenção ao noticiário internacional. Outro trunfo era o grupo de colaboradores literários, que incluía boa parte dos mais relevantes autores do tempo. A qualidade compensou: aos domingos, chegava a vender mais cem mil exemplares.
No início dos anos 70, as tiragens já andavam longe destes números, mas a decadência irreversível do jornal iniciou-se com a administração do Consórcio Difusor de Notícias, que reunia um grupo de personalidades próximas do CDS. Ao longo dos anos 80, sucedem-se os directores – Freitas Cruz, Pedro Feytor Pinto, Alberto Carvalho e Agustina Bessa Luís e José Manuel Barroso.
Em 1991, o encerramento pareceu irreversível, quando a Lisgráfica se recusou a continuar a imprimir o jornal. Mas um grupo de investidores liderado por Eduardo Costa, proprietário da Folha de Azeméis e de outros jornais regionais, apostou em viabilizar o matutino. O empresário, que é ainda dono do jornal, foi condenado recentemente por um crime de fraude postal no início dos anos 90, decisão da qual já anunciou que vai recorrer.

