Jornais britânicos definem estratégias para edições online

16.06.2006 - 11:31 Por Ana Machado, , (PÚBLICO)
As estratégias dos diários britânicos "The Guardian" e "The Daily Telegraph" não podiam ser mais contraditórias. Num dia o "The Guardian" anuncia que vai passar a editar as principais notícias ao longo do dia em primeira mão na Internet, para, no dia seguinte, as desenvolver. Um dia depois o "The Daily Telegraph" afirma que vai atrasar a edição do jornal na net para incentivar os leitores a comprarem o jornal em papel.
Quando alguém como o barão dos media Rupert Murdoch anuncia, como anunciou em Abril, numa conferência da Sociedade Americana de Editores de Jornais, que o futuro está nos suportes digitais, as suas declarações têm um efeito quase imediato nas estratégias dos grandes grupos de media. E pode dizer-se que as estratégias anunciadas pelo diário britânico "The Guardian" este mês são um exemplo disso.
O diário britânico anunciou que vai publicar em primeira mão na Internet algumas das suas principais notícias de actualidade internacional e financeira, que só poderiam ser lidas na edição em papel no dia seguinte.
Com esta estratégia, adianta o "The Guardian", o jornal quer aumentar o número global de leitores do diário britânico, mas também fazer frente à concorrência dos novos media, colocando um ponto final na limitação de ter de esperar 24 horas para publicar uma história, algo que os responsáveis do jornal consideram um grande desafio para os seus jornalistas.
Por outro lado, o "The Daily Telegraph", outro diário britânico, informou, um dia a seguir ao anúncio do "The Guardian", que quer atrasar a publicação da sua edição online para obrigar os seus leitores a comprar mais o formato de papel.
A esta decisão, oposta à do "The Guardian", não será alheio o facto de a idade média dos oito milhões de leitores do "The Daily Telegraph" em papel ser de 58 anos. Os leitores da edição online do "The Daily Telegraph", que são cerca de 1,5 milhões, têm já uma média de idades mais jovem, com 38 anos.
O argumento apresentado por Annelies van den Belt, a directora para novos media do grupo The Telegraph, não deixa de ser forte: no Reino Unido cerca de 60 por cento dos leitores de jornais continuam fiéis às edições tradicionais em papel.
Mas o facto é que, segundo dados avançados pelo "The Financial Times", em finais de Maio, os gastos em publicidade na net, nos media britânicos, é já de 13,3 por cento, enquanto nos jornais em papel representa 13,2 por cento do investimento publicitário. E este dado favorece a posição assumida pelo "The Guardian".
João Marcelino, director do "Correio da Manhã", o diário português com maior tiragem, afirma que a estratégia do "The Guardian" ainda não passa pelos planos deste diário popular português, que nos últimos tempos tem vindo a investir gradualmente na sua edição online. O diário já pode ser consultado na net por volta das duas da manhã, diz o director. "Não me parece boa ideia, mas não conheço ao pormenor esta estratégia do 'The Guardian'. Parece-me uma estratégia que visa a criação de hábitos de leitura para, a curto prazo, poderem fechar o site a assinantes. Mas o facto é que o que os estudos mostram é que, quando os sites são fechados, as pessoas vão procurar informação a outro lado", afirma João Marcelino.
Por seu lado, José Vítor Malheiros, director do PUBLICO.PT, acredita que a tendência seguida agora pelo "The Guardian" é um caminho inevitável que os jornais terão de seguir: "É claro que a rapidez a dar notícias não é um trunfo do jornal. Os jornais têm de apostar na análise, no comentário, na multiplicidade de pontos de vista. O que caracteriza os jornais em papel é a riqueza, não a rapidez. Essa é uma guerra perdida a favor da rádio, da TV e principalmente da Net."
O director do site do PÚBLICO conclui: "A postura mais inteligente é sem dúvida esta: dar as notícias no site e desenvolvê-las no jornal."

