Entrevista realizada em Janeiro de 2007 por José Luiz Fernandes, no âmbito do projecto de investigação "Perfil Sociológico do Jornalista Português", financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e coordenado por José Rebelo.
O local para a nossa conversa dificilmente poderia ser outro que não esta casa comum – o Sindicato dos Jornalistas, a cuja direcção presidiu de 1989 a 1992.
João Mesquita é um exemplo do jornalista que chega à profissão, após o 25 de Abril, pela via da militância política. É também exemplo do jornalista qualificado e experiente que as redacções portuguesas menosprezam. Aos 49 anos e meio, à data da entrevista, carrega mais de três anos de desemprego e, como admite, vê poucas possibilidades de voltar a uma redacção.
Guarda excelente memória de acontecimentos e respectivos protagonistas e mantém-se frontal e crítico. A sua visão dos problemas do jornalismo dos anos 80 e 90 é esclarecedora, inclusive do presente. Fala-nos de como os jornalistas intentaram, nessa época de charneira, “uma nova prática jornalística, um jornalismo pós-Censura e pós-PREC”. E como o poder se assustou, quando ouviu falar numa ideologia da profissão, e logo “pensou mais na domesticação dos jornalistas do que na sua responsabilização. Dá a ideia de que ainda hoje continua assustado…”.
Era João Mesquita presidente da direcção sindical quando um grupo de profissionais lançou um movimento para a criação da Ordem dos Jornalistas. O Sindicato promoveu, em 1992, um referendo aberto a todos os profissionais, que se pronunciaram maioritariamente contra a hipótese. João Mesquita continua a considerar uma Ordem “completamente desadequada à profissão”, cujo membros, na generalidade, não isenta de co-responsabilidade pela crise actual do jornalismo. “As redacções pensam pouco, agem ainda menos” – afirmação que nos deixa, para reflexão dos jornalistas.
Foi “um pouco por acaso” que João Mesquita nasceu em Coimbra. Seu pai, juiz de Direito, fora transferido de Tomar para o Porto e a mãe, então na fase final da gravidez, foi para casa dos pais, na cidade do Mondego, onde o avô era inspector do Magistério Primário.
Nascido a 3 de Junho de 1957, João Bernardo Bigotte da Costa de Mesquita viveu a infância em várias localidades e regiões, de acordo com as colocações do pai. Sai do Porto, com menos de dois anos, para Santa Maria, nos Açores; voltará às Beiras, primeiro Gouveia, depois Castelo Branco; seguir-se-á Torres Vedras e aos 14 anos chega a Lisboa, quando o magistrado é colocado na Procuradoria-Geral da República.
Corria o ano de 1971 e é matriculado no Liceu Camões, para fazer o quinto ano, mas como recorda, “nunca consegui fazer nada: no primeiro ano fui suspenso, no segundo fui expulso. Nessa altura já desenvolvia actividade associativa, fui fundador do núcleo do Camões do Movimento Associativo do Ensino Secundário de Lisboa (MAESL). Além disso, era um bocado mal comportado, de facto. Depois, tive problemas para me conseguir inscrever noutro liceu. Nenhum me aceitava, até que fui acolhido no Passos Manuel, para onde iam os ‘marginais’ todos: os sociais e os políticos”.
No Liceu Passos Manuel, João Mesquita envolve-se ainda mais na actividade política. Organiza e participa em meetings contra a guerra colonial, que levam a polícia a invadir o liceu. A 16 de Dezembro de 1973 é um dos 164 estudantes do ensino secundário presos na Faculdade de Medicina de Lisboa. É no Passos Manuel que vive o 25 de Abril de 1974. “Logo no dia 26, criámos uma comissão pró-associação de estudantes, depois entrei na direcção da associação e na actividade política e pouco tempo passava nas aulas. Lá deixei o liceu, em 1978, embora com duas disciplinas que nunca conclui”.


