Entrevista

Jeff Jarvis: No jornalismo, as boas ideias são do público

21.04.2008 - 12:24 Por Pedro Ribeiro, João Pedro Pereira

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Jeff Jarvis Jeff Jarvis (Daniel Rocha)
A imprensa está em crise: receitas publicitárias em quebra, vendas a descer, fuga de leitores para a Internet. Mas há quem veja no estado actual do jornalismo uma oportunidade. Jeff Jarvis é uma dessas pessoas; foi jornalista, hoje é autor do influente blogue Buzzmachine e um dos especialistas mais importantes nos EUA sobre a evolução da Internet.

Adepto das novas tecnologias, foi graças a elas que esta entrevista se realizou. Jarvis deslocou-se a Lisboa para uma reunião de trabalho, e escreveu sobre isso no Twitter (um popular serviço de microblogues). Um jornalista do PÚBLICO leu e enviou-lhe um pedido de entrevista.

Jarvis acedeu, e escreveu de imediato no seu Twitter: “O Twitter é espantoso. Um repórter de Lisboa viu que estou aqui e quer falar.” E falámos – sobre o futuro da imprensa, o papel do cidadãojornalista, a hiperlocalização das notícias e “o que faria o Google”.

P: Acha que os jornais e a imprensa radiofónica e televisiva vão acabar, ou é própria profissão de jornalista que está em risco?

Na verdade, sinto-me muito optimista sobre o jornalismo. Acho que há grandes oportunidades de crescimento, se redefinirmos as notícias e o jornalismo em termos latos. As estruturas anteriores do jornalismo dependiam dos meios de produção – a imprensa, a torre de emissões. Isso ditava os meios de distribuição e tudo o resto, mas não era isso que definia o jornalismo. O jornalismo é pessoas à procura de coisas que precisam de saber. Acredito que há oportunidades para o jornalismo colaborativo, com mais pessoas envolvidas.

P: Está a falar dos cidadãos-jornalistas?

Sim. Aí chega-se à pergunta: o que é o jornalismo, quem é um jornalista? Acho que é um erro definir o jornalismo com base em quem o pratica. Há pessoas que podem fazer um acto de jornalismo uma única vez na vida. Por exemplo, alguém que no tsunami [no Sudeste asiático] tirou uma foto do que se estava a passar, isso foi um acto de jornalismo.
O papel do jornalista muda. Temos mais gente a fazer jornalismo, isso pode ser confuso; há um papel para os jornalistas, que é editar, gerir [“curate”], talvez até ser educadores, ajudar as pessoas a fazer jornalismo melhor. A ideia de que as instituições são donas do jornalismo, isso vai acabar. Mas não quer dizer que vá acabar o jornalismo.

P: E para que servirão então os jornalistas?

Há a recolha e a distribuição de notícias. Sempre fomos atrás da testemunha ou do perito para saber o que se passa; agora, a testemunha ou o perito podem expressar-se eles próprios. Já não somos os únicos a recolher informação. Mas há cada vez mais um papel para... Eu uso a palavra inglesa “curate” [termo para os responsáveis pela gestão de museus ou outras instituições, ou para o trabalho do comissário de uma exposição], que parece o trabalho de um bibliotecário...

P: A sua ideia para o New York Times (NYT) era acabar com as secções de desporto e local, focar-se no noticiário nacional e internacional.

Não digo para fecharem o local e o desporto, digo que deviam ser negócios separados.

P: Mas isso não ia dar cabo da personalidade do NYT? Deixava de ser um jornal de Nova Iorque.

Os nova-iorquinos não o compram. As vendas em Nova Iorque são péssimas. Ora, é o NYT uma influência jornalística importante sobre a comunidade? Sim. Mas tem de se adaptar uma realidade económica.
Várias gerações de editores do Los Angeles Times (LAT) orgulhavam-se de escrever todos os artigos com a sua própria equipa, e cobrir todo o mundo assim. Mas qual é o valor disso? O valor de uma assinatura é muito limitado. Nem a minha mãe repara na assinatura dos artigos que eu escrevo. O que interessa é o conteúdo.
O Ken Auletta [jornalista da New Yorker] dizia-me: não é bom que o LAT, como portal para a Ásia, tenha um correspondente na Ásia? E eu respondi, pois, é bom. Mas, por outro lado, para que serve ter uma única pessoa para um continente inteiro? É quase absurdo.
O NYT, numa altura de cortes, substituiu esse posto por dois jornalistas poliglotas na sua redacção de Nova Iorque. Se tivesse duas pessoas em Los Angeles a ler e sumariar os media asiáticos, e a fazer um relato diário sobre tudo o que se passa – o que era melhor, isso ou um correspondente?

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