Informação espectáculo e dramatismo na TV fazem passar mensagem errada da realidade

21.03.2010 - 13:36 Por Ana Machado
Há uma mensagem quase virtual que passa para a sociedade dos conteúdos da televisão que temos em Portugal. A análise é do investigador Nuno Goulard Brandão que, no livro As notícias nos telejornais, uma análise de jornais televisivos ao longo de 10 anos, lançado amanhã, constata que todos os canais optam por privilegiar uma informação espectáculo, dramatizada e negativa.
“A dramatização, emoção, espectacularidade, negativismo, são as abordagens em que a informação dos nossos canais mais incidem”, conclui Nuno Goulard Brandão. “Não digo que se ignore o que é de facto negativo. Mas também há aspectos que são positivos. Basta ver como a mensagem de confiança de Barack Obama serviu para o eleger”, diz o investigador.
Para Nuno Goulard Brandão o modo como a informação é feita nas nossas televisões é tão mais importante quando 80 a 90 por cento da informação que as pessoas consomem está concentrada na TV. “É preocupante esta dependência, que não é complementada com outros meios de comunicação”.
Numa altura em que se fala de responsabilidade social dos media, e quando aquilo que consumimos nos media é gerador do que falamos, o investigador alerta para o impacto das notícias que vemos na televisão e da força que isso exerce na vida quotidiana. “E aqui todos os canais são iguais”. Esta realidade tem ainda mais peso, refere, quando se fala de Portugal, um país com elevado nível de iliteracia, onde a leitura, a compra de jornais e consumo de cultura são muito baixos.
Nuno Goulard Brandão defende “um serviço público complementar e alternativo, com publicidade mas não ao nível que hoje existe”. “A concorrência exercida pela RTP na publicidade é não só condicionadora dos outros canais mas também de todos os media em geral”.
O autor alerta também para a transformação que está a ocorrer nas audiências, com as gerações mais jovens a abandonarem os canais generalistas e a saltarem para o cabo, o que só prova uma coisa: “Há uma TV desadequada à sociedade onde estamos inseridos e um divórcio entre os mais jovens e a TV generalista.”
Sobre os temas tratados nos jornais televisivos, Nuno Goulard Brandão, que se tem debruçado sobre esta análise há largos anos, diz que os acidentes e catástrofes e os problemas sociais e casos de polícia continua no topo da tabela como os temas mais tratados nas notícias de TV, e que houve um aumento da percentagem de notícias sobre política nacional. “Mas é uma política de agenda. A informação sobre os partidos políticos é marginal”. Temas como ciência, cultura e até política internacional continuam a ser marginais.
Nuno Goulard Brandão trabalhou 20 anos na RTP e é professor do Instituto de Novas Profissões.

