Ética e veracidade de artigo deixam Jared Diamond e New Yorker em apuros

03.06.2009 - 10:04 Por Clara Barata
É um dos cientistas mais conhecidos do mundo, tanto pela investigação original que faz, como pelos livros que escreve (até já ganhou um Prémio Pulitzer). E a revista onde Jared Diamond escreveu o artigo que pode ser a sua queda em desgraça é uma das mais conceituadas do mundo, onde escrevem os jornalistas e escritores mais bem cotados: a "New Yorker". Autor e revista estão agora a ser processados por dois cidadãos da Papuásia-Nova Guiné, que pedem uma indemnização de dez milhões de dólares por difamação.
O processo foi iniciado num tribunal de Nova Iorque este mês, mas refere-se a um artigo publicado na "New Yorker" de 21 de Abril de 2008, com o título "A vingança é nossa - o que as sociedades tribais nos podem ensinar sobre a nossa necessidade de vingança".
Diamond é zoólogo de formação, especialista em aves e, nos últimos anos, praticante de uma área a que chama "biogeografia", em que tenta explicar a evolução das sociedades através de condicionantes biológicas e evolutivas, como os recursos agrícolas disponíveis, por exemplo. E é também autor de livros como Armas, Germes e Aço (Relógio d'Água) e Colapso (Gradiva), em que fala dos factores que levaram ao sucesso histórico das sociedades (no primeiro) e os que podem levar ao seu fracasso (o segundo).
Voltando ao artigo da "New Yorker", o que Diamond relatava era algo de espantar: uma guerra entre duas tribos das terras altas da Papuásia-Nova-Guiné (uma nação de ilhas no oceano Pacífico), há menos de dez anos, em que o líder de uma das facções tinha sido o seu motorista, quando por lá andou, nos anos de 2001-2002, num projecto do Fundo Mundial para a Conservação da Natureza (do qual Diamond é conselheiro) e da petrolífera norte-americana Chevron.
Tudo começa com um porco
Relatava o cientista da Universidade da Califórnia que o seu motorista, Daniel Wemp, tinha sido o "dono da guerra" pelo lado do clã Handa, quando o seu tio Soll foi morto numa batalha com os Ombal - numa guerra iniciada quando um porco entrou numa horta que não era do seu dono e a destruiu.
Para vingar o tio paterno Soll, Wemp empenhou-se numa longa e sangrenta guerra de três anos, em que morreram 29 pessoas, várias mulheres foram violadas e 300 porcos sacrificados. Só terminou quando um homem dos Ombal, o dono da luta neste clã (chamado Henep Isum Mandingo) ficou paralítico, confinado a uma cadeira de rodas, quando uma seta disparada pelo clã de Wemp lhe cortou a espinal medula.
Ora o relato é tão incrível, e as citações atribuídas a Wemp, um homem sem grandes estudos, surgem num inglês tão elaborado, que cheiraram a esturro a Rhonda Roland Shearer, directora do Art Research Laboratory, em Nova Iorque (uma organização sem fins lucrativos que fundou, com o seu falecido marido, o especialista em evolução e história das ciências Stephen Jay Gould). Shearer é a impulsionadora do site Stinkyjournalism.org, que pretende utilizar o método científico para promover a ética nos media.
Mexendo cordelinhos e contactos científicos, Shearer recrutou a ajuda de cientistas na Papuásia-Nova Guiné para verificar a história de Diamond, relata a própria num artigo colocado on-line a 21 de Abril, intitulado "O colapso factual de Jared Diamond". O que descobriu foi um admiradíssimo Daniel Wemp, que nunca pensou que as histórias que contou ao cientista fossem parar a uma revista americana, e até encontrou o homem que Diamond dizia que tinha ficado confinado a uma cadeira de rodas, Mandingo, a andar pelo seu pé com considerável vigor.
Mais: nenhum deles tinha sido contactado pela equipa de verificadores de factos da "New Yorker" (algo de que a revista se orgulha, como forma de garantir a veracidade dos artigos que publica). "Fomos nós a dar a notícia a Wemp, e só depois de muita insistência um fact-checker da "New Yorker" falou com Wemp", contou Rhonda Shearer ao PÚBLICO, por telefone, a partir de Nova Iorque.
Ludibriado?
"Daniel Wemp apenas contou a Diamond coisas que se ouviam dizer, como eu lhe posso contar que ouvi dizer que esfaquearam uma mulher em Central Park", diz Rhonda Shearer. A velha máxima que diz que "quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto", em especial enaltecendo a sua própria participação na história, é muito comum na Papuásia-Nova Guiné, relatam os antropólogos que conhecem o país.

