Editorial: Das bombas de Bissau ao adeus à cadeira do director

31.10.2009 - 14:54 Por José Manuel Fernandes

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"Coragem." Foi assim que, a 17 de Julho de 1998, terminou um telefonema que nunca esquecerei. Recebi-o em Bissau quando, no final de mais um dia de guerra civil, acabara de ligar o telefone de satélite - e este tocou sem que eu estivesse à espera de nenhuma chamada. Sobretudo não estava à espera daquela chamada: ligava-me Carlos Moreira da Silva, o gestor que ajudara a pôr o PÚBLICO de pé e que, entretanto, andara por outras áreas da Sonae.

"Preciso de lhe falar. Quando é que volta a Lisboa?"

Voltar a Lisboa? Mas acabara de chegar para render o anterior enviado do PÚBLICO, ninguém sabia quanto tempo duraria o conflito, o aeroporto estava fechado, só montar a viagem de regresso seria uma enorme incógnita...

"Tem de ser. Antes do fim do mês."

Perdi a timidez e perguntei se era para ouvir a minha opinião sobre o PÚBLICO e uma solução para a sua direcção. Se fosse para isso, não valia a pena eu regressar, dar-lha-ia pelo telefone. Não era. Era para saber se eu estava disponível para ser o director.

Nessa altura, um enorme estrondo fez abanar o edifício da RTP em Bissau, mas não interrompemos a conversa. Combinámos que veria como poderia regressar e depois lhe falaria. Tudo por entre o ruído de explosões de granadas de artilharia. Até que, antes de nos despedirmos, me perguntou: "Isso são tiros?" Eram. Então...

"Coragem."

Pousei o telefone, sentei-me no chão e, face ao olhar incrédulo de Cândida Pinto, da SIC, disse apenas: "Não vais acreditar quando te contar o telefonema que recebi."

Passaram mais de onze anos e lembrei-me muitas vezes desse voto de Carlos Moreira da Silva. Não por ter tido, de novo, a oportunidade de cobrir um conflito militar. E também não pelo que, como director do PÚBLICO, me coube fazer, impulsionar, estimular ou dirigir.

Este foi - e continuará a ser - o grande projecto profissional da minha vida.

Pela ambição que desde o início teve, a ambição de fazer em Portugal um diário de qualidade como os grandes diários europeus, algo só possível pela reunião entre uma equipa então liderada por Vicente Jorge Silva e um empresário como Belmiro de Azevedo. E enganam-se todos os que ainda hoje pensam que este jornal só sobreviveu graças ao músculo financeiro da Sonae: este jornal triunfou e é o que é porque a Sonae e a família Azevedo - o Belmiro, o Paulo, a Cláudia -, desde a primeira hora, entenderam que qualidade implicava independência e, para além de darem toda a liberdade editorial, nunca cederam a quem, em muitos e diferentes momentos, quis que influenciassem a orientação do PÚBLICO.

Pelas oportunidades que aqui tive - e a maior de todas foi ter podido conviver e trabalhar com muitos dos melhores jornalistas portugueses, foi ter podido ver nascer e crescer muitos dos nomes que hoje fazem a diferença na profissão. Os que estão no PÚBLICO e os que saíram do PÚBLICO, ainda todos parte de uma grande família que mesmo a passagem por muitos momentos difíceis nunca desarticulou.

Pela exigência que sempre colocámos em tudo quanto fizemos, mesmo nos projectos que nunca chegaram tão longe quanto desejámos. Exigência editorial, marca de água desta casa. Mas também exigência como projecto empresarial, pois a Sonae, correctamente, nunca desistiu de conjugar o sucesso editorial com o sucesso empresarial.

Nos momentos de euforia e nas curvas mais difíceis de toda a sua história, e em particular nestes últimos onze anos, quando havia dúvidas, opções a tomar, riscos a correr, nunca senti que a palavra-chave fosse "coragem", antes determinação, abertura para ouvir todas as opiniões, preocupação em agir com a justiça e rectidão nos sempre complexos processos de mudança e reestruturação.

Se posso dizer que dei o meu melhor, sei que recebi muito mais de todos com quem trabalhei, a todos os níveis, do accionista ao mais jovem dos jornalistas da equipa do PÚBLICO.

Coragem para se ter estes privilégios? Não, as bombas de Bissau eram mais perigosas.

Coragem, como por vezes me pediam leitores com que me cruzava na rua, por o PÚBLICO ser como é e eu sempre ter escrito o que pensava? Essa "coragem" seria mais necessária noutros tempos, não quando vivemos em liberdade.

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Censurador

De ti fico com a imagem de quem censurou sempre que pôde as opiniões que não te ...

Anónimo

31.10.2009 22:43