Caso da licenciatura de Sócrates foi o primeiro desafio sério para a comunicação do Governo 
26.05.2008 - 09:43 Por Inês Sequeira
As notícias sobre o percurso académico de José Sócrates marcaram o fim da lua-de-mel entre o primeiro-ministro e os eleitores. O caso da licenciatura em Engenharia de Sócrates na Universidade Independente foi também o primeiro desafio sério à máquina de comunicação do Governo, pondo em causa a sua capacidade de gerir os "media" e também de estabelecer e controlar a agenda mediática.
Estas são as conclusões de um trabalho académico realizado por Rui Novais, investigador do Centro de Estudos das Tecnologias, Ciências e Artes da Comunicação (CETAC.Media) da Universidade do Porto, e também na Universidade de Liverpool.
"[Este] escândalo constituiu um evento raro e excepcional de uma tentativa abertamente assumida por um Governo de gerir as notícias", escreve Novais num artigo apresentado na semana passada durante uma conferência internacional sobre o sector. O principal objectivo do estudo foi analisar as reacções do primeiro-ministro ao caso da licenciatura, e a forma como a estratégia comunicativa do chefe de Governo se reflectiu nos próprios "media".
A análise estendeu-se a notícias publicadas na imprensa entre 23 de Março (dia em que o primeiro artigo sobre o caso surgiu no PÚBLICO) e 23 de Junho de 2007, "quando a história se desvaneceu depois de ser conhecida a queixa judicial do primeiro-ministro contra António Caldeira, do blogue Do Portugal Profundo (o primeiro a fazer referências ao caso, desde 2005). Novais focou-se principalmente em 160 artigos publicados ao longo de três meses por PÚBLICO, "Diário de Notícias", "Sol" e "Expresso".
Rui Novais considera que "a gestão noticiosa [pelo Governo] se transformou num foco adicional e inesperado de acusação contra o primeiro-ministro", com as tentativas de demover a publicação original da história e de mais notícias após esta. Segundo o académico, que respondeu por escrito a algumas questões, "não podendo impedir a divulgação do episódio, restava ao visado tentar conter as ondas de choque e esvaziar ou, como dizem os anglo-saxónicos, 'kill the story' ['abafar a história'] com a maior celeridade possível".
Para Novais, estas tentativas "foram mais bem sucedidas porque lograram colocar em [ponto morto] a polémica que se manteve por meses na imprensa", citando como exemplos a entrevista de Sócrates na RTP1, mas também "a inundação da agenda noticiosa com eventos positivos" e o lançamento de alegações sobre "as motivações dos acusadores (quer da oposição, quer dos 'media')".
O fumo no avião: uma "combinação" de respostas
As reacções de Sócrates às notícias sobre o fumo a bordo do avião para a Venezuela mostram "novamente uma combinação de respostas comunicacionais", considerou Rui Novais, com base numa "análise superficial e distanciada".
O investigador acha ainda que "a atribuição de relevância aos chamados 'delitos menores' (que costumavam ser ignorados) parece ser indicadora mais da tendência para o 'infotainmente' do que propriamente do cumprimento da função de vigilância ('watchdog') dos 'media' ".

