"A Turquia já está na Europa. É difícil aceitar que não esteja na União Europeia", diz Erdogan

02.02.2010 - 09:16 Por Maria João Guimarães, Istambul
O lançamento do serviço da estação de televisão europeia Euronews em turco foi o pretexto para falar da Europa e da Turquia. No Palácio Dolmabahçe, o mais sumptuoso palácio de Istambul, na margem europeia do Bósforo, Recep Tayyip Erdogan aproveitou para defender a candidatura da Turquia à UE, falando de um "sonho de meio século" que, "depois de reformas, se está a tornar numa meta concreta".
Para mostrar que a Turquia "não é um fardo" para a UE mas sim "uma oportunidade única", Erdogan desfiou dados: "Há sete anos a economia turca era a 26.ª maior economia do mundo, hoje é a 17.ª. A Turquia foi um dos países menos afectados pela crise económica mundial", por exemplo.
"Já temos cinco milhões de turcos na Europa", disse Erdogan, referindo-se aos imigrantes turcos nos países da UE. "Já estamos na Europa. É muito difícil perceber por que não estamos na UE".
Após o discurso do primeiro-ministro, a cerimónia de sábado à noite continuou com a transmissão da emissão da Euronews, com uma entrevista em turco a Erdogan em que o primeiro-ministro acusou "alguns países da UE" de falta de honestidade em relação às negociações de adesão da Turquia - por exemplo, o francês Nicolas Sarkozy. Mas o primeiro-ministro turco garantiu que a Turquia vai continuar na via europeia.
Nem todos os turcos partilham desta esperança de Erdogan. Fora do palácio, uma rapariga com auscultadores brancos nos ouvidos e um elegante sobretudo cintado - podia estar em Istambul ou em Berlim, Paris ou Lisboa, apenas os olhos bem carregados de preto dão um toque mais local - anda apressada, mas ainda responde a uma pergunta: acha que um dia a Turquia vai entrar na UE? "Não", dispara, rápida: um "não" simples, que dispensa explicações.
Segundo inquéritos recentes, 60 por cento dos turcos votariam "sim" num referendo de entrada na UE. Mas apenas 40 por cento acreditam que a Turquia irá acabar por entrar no clube europeu.
Melhor compreensão
A importância do lançamento da Euronews em turco é assim grande para um país que teima em manter aberta a porta de entrada na União Europeia.
A história começou com a ideia da Euronews lançar um serviço em turco já em 2003 (os media norte-americanos têm presença na Turquia - existe a CNN Turk, o único canal com o logo da estação norte-americana numa língua estrangeira 24h por dia fora dos EUA, e uma versão do canal de notícias económicas Bloomberg, por exemplo), mas só em 2008 a TRT (televisão pública) começou a considerar a ideia de uma parceria com a Euronews.
Ibrahim Sahin, o director-geral da TRT, vê vantagens nesta parceria (a TRT tornou-se o 4.ª maior entre os 21 accionistas da Euronews, com 15,7 por cento das acções do canal): "Queremos que chegue informação sobre a Turquia à Europa e queremos que essa informação seja mais objectiva", adianta, para concluir: "Por isso é que insistimos em ter algo a dizer no processo de selecção". A TRT escolheu um grupo de jornalistas e destes 17 foram depois seleccionados pela Euronews.
O presidente do conselho de administração da Euronews, Phillipe Cayla, sublinhou que "há muito para dizer sobre a Turquia" e isso "vai-se reflectir na programação Euronews". A relação com a TRT é "profissional e amigável", e respeitará "a independência da nossa redacção".
A Turquia espera que esta maior presença nas notícias europeias leve a um maior conhecimento do país. Já foram emitidas reportagens sobre Istambul, a capital europeia da cultura. A cidade que nunca pára e onde se pode passar a pé da Europa para a Ásia cresceu exponencialmente: Istambul tinha um milhão de habitantes em 1950, hoje tem 15 milhões.
A vivacidade da cidade e a sua escala podem ser vistas num sábado à noite na Avenida Istiklal - uma massa de pessoas que não pára atravessa a grande avenida, parando em cafés, bares, restaurantes ou livrarias/lojas de discos (numa delas ouve-se fado; é a portuguesa Marisa).
"Acredito que a presença da Turquia na Euronews vai contribuir para uma melhor compreensão do nosso país", disse Erdogan, na cerimónia de lançamento. Esta terminou com o Hino à Alegria, de Beethoven, o hino não oficial da UE, tocado por músicos turcos em estilo tradicional.
O PÚBLICO viajou a convite da Euronews

