A Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP) lançou, no início do ano, um concurso de arquitectura para a requalificação do Museu do Carro Eléctrico. O melhor projecto será premiado com 12.500 euros (quantia semelhante será distribuída por mais sete propostas), sendo depois encomendada ao vencedor a execução do desenho de uma intervenção que, segundo foi noticiado, está orçada em 8,6 milhões de euros. A empresa pública, porém, já pagou, em 2003, cerca de 160 mil euros por um projecto idêntico, encomendado a Alcino Soutinho, um dos mais prestigiados arquitectos portugueses.
Ontem contactado pelo PÚBLICO, Alcino Soutinho confirmou este "infeliz processo" e adiantou estar "magoado" com a situação, tanto mais que o programa do concurso agora lançado "é praticamente o mesmo" que resultou de seis anos de trabalho. O projecto de requalificação, refira-se, foi encomendado a Soutinho em 1997, pela administração então presidida por Carlos Brito, mas, segundo o arquitecto, o programa era, então, "muito básico" e teve que ser desenvolvido pela sua equipa no decurso de um processo "longo, discutido, muito acompanhado e em diálogo permanente" com a empresa.
"Em 2003, o projecto estava pronto para que a construção pudesse ser posta a concurso, mas, por vários motivos, incluindo a falta de disponibilidade financeira, foi sendo adiado. Agora isto é uma situação um pouco... Considero isto inadequado, para não adjectivar mais. Não gosto de fazer grandes romarias com estas coisas, às quais já se vai estando habituado, mas as conclusões têm que ser tiradas", disse Alcino Soutinho ao PÚBLICO, acrescentando ter já sido contactado esta semana por dois administradores da STCP, os quais lamentaram a situação.
Contactada pelo PÚBLICO, a administração da STCP não tinha ainda, ao final da tarde de ontem, prestado qualquer esclarecimento sobre este processo, nomeadamente quanto aos motivos que levaram a empresa a lançar concurso para um projecto pelo qual já tinha pago 160 mil euros.
"Estou magoado, não vou dizer que não estou. Não se trata só de questões materiais, mas sobretudo de questões de ordem profissional. É um projecto ao qual tenho ligadas algumas afectividades", disse Alcino Soutinho, o qual afasta, porém, a hipótese de concorrer ao concurso agora lançado com o projecto antes apresentado. "Não tenho ânimo para submeter a concurso uma coisa que já fiz", afirmou, acrescentando que, dada a complexidade da intervenção, o processo agora lançado deveria, pelo menos, incluir uma fase de pré-qualificação, uma vez que "exige qualificações muito específicas e procedimentos muito particulares".
O projecto de Alcino Soutinho, aliás, foi conhecendo várias fases, incluindo um projecto de revisão de estruturas e de cobertura que, há alguns anos, permitiu atalhar os problemas existentes na nave central do velho edifício classificado da marginal de Massarelos, onde o museu está instalado desde 1992. "Havia infiltrações e a estrutura ameaçava ruir", explicou o arquitecto. Soutinho desenhou ainda a loja do museu e fez um estudo para a reformulação do sistema de entradas.
O concurso para a requalificação do Museu do Carro Eléctrico, recorde-se, conta com a assessoria técnica da Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos e visa o desenvolvimento de "áreas de negócio específicas cujo potencial de captação de receita é elevado, nomeadamente o aluguer de espaços para a organização de eventos de média e grande dimensão, a restauração e o aluguer de carros eléctricos".


