As zonas altas da Ribeira Brava viveram, nas últimas 24 horas, momentos de aflição, desespero e pânico com a ribeira a destruir a única estrada de ligação ao túnel da Encumeada, estrada de ligação ao norte da ilha.
Lama, pedras, água, detritos, cadáveres, máquinas pesadas para limpeza, camiões para carregar o entulho, é o cenário encontrado hoje de manhã pelas autoridades nas zonas altas daquele concelho a oeste do Funchal.
O caminho faz-se de forma difícil, porque apenas à hora do almoço de hoje, se abriu um canal de segurança para poder dar ajuda às populações.
À entrada do primeiro túnel, junto a uma superfície comercial, jaz um cadáver de uma senhora. Era a cozinheira do quartel dos bombeiros que logo a identificaram.
O corpo esteve praticamente um dia para ser removido do local, mas a ajuda só conseguiu aproximar-se da zona, hoje pela manhã.
De comunicações cortadas, sem luz e água, a vida faz-se com passos certos e alguns reencontros felizes.
Elisabete Ribeiro “berrava” para o outro lado da ribeira para falar com a irmã e, da outra banda, respondia-lhe, entre palavras abafadas pelo troar da ribeira, uma irmã mais pequena e assustada.
“Não saias daí”, dizia-lhe Elisabete. “Estás mais segura desse lado”, esforçava-se, para fazer ouvir a voz do outro lado dos oito metros que separam as duas margens.
Na Fajã da Ribeira, pequena localidade logo à entrada da vila da Ribeira Brava, uma série de homens tentavam vencer a força da ribeira, usando uma árvore arrastada pela corrente para servir de ponte.
É a única maneira de chegar ao outro lado, pois a ponte antiga foi levada pelas águas revoltas. Não há como sair ou entrar de forma segura.
A estrada para cima, no sentido das zonas altas, faz-se a passo. De repente, desaparece o chão. A estrada desabou, foi engolida pelas águas da ribeira. Acabou a caminhada para muitos.
A passagem é feita a pé, por dentro de uma habitação, que miraculosamente se manteve de pé.
Com o final da estrada, aparece o desespero das populações locais. “Tem sido horrível. Além desta derrocada, tem estado vento”, dizia uma das testemunhas da tragédia, já com as lágrimas a caírem pelo rosto.
“O que é que a gente pode fazer?”, reclamava, é sofrer e chorar. É desanimar”, desabafava sem vontade de contar o que se passou.
A estrada de ligação ao túnel da Encumeada desapareceu em cerca de 20 metros. É o bastante para deixar isoladas as populações que têm recebido, pelo sul, ajuda dos bombeiros da Ribeira Brava, e a norte, pelas corporações de São Vicente e Porto Moniz.
Agostinho Silva, comandante da corporação de bombeiros locais, explicou que restituir a zona à normalidade “vai demorar semanas” e a estrada só vai ficar reparada “no prazo de um ano”, respondia enquanto encolhia os ombros.
Um encolher de ombros significativo para todos quanto olhavam para a cara conhecida. Dar uma vida normal àquelas populações é “coisa para demorar bem mais do que um ano”, reconhecia.


