Reportagem: Ver a tragédia com olhar de turista

25.02.2010 - 08:05 Por Reportagem de Paulo Moura, Funchal
A tempestade não afugentou os turistas da Madeira. Uns não saem do hotel, e quase não deram por nada. Outros saíram para fotografar a tragédia. Férias são férias.
Luís Nunes faz o seu trabalho, mas com relutância. "Eu fico espantado. É muito esquisito", diz ele. "Os turistas querem fazer os programas, como se nada se tivesse passado." Luís é responsável pelo Savoy Information Center, um organismo que organiza passeios e actividades para turistas, ligado ao Hotel Savoy. "Pensei que ninguém ia querer fazer estas coisas. Afinal..."
Depois da tempestade de sábado, todos os tours e trackings pela ilha foram cancelados. Nos últimos dias, alguns reabriram, embora com restrições, porque várias estradas estão cortadas, ou são consideradas perigosas. Luís Nunes está ao balcão do centro e atende os turistas, mas não os encoraja a fazer os percursos a pé pelas levadas, os cursos de água espalhados pelos montes. Nem a ir ver as 25 fontes ou o Parque das Queimadas, ou o Caldeirão Verde. Os turistas, britânicos, escandinavos ou alemães, com idades entre os 50 e os 80 anos, vão na mesma. E se não há grupos organizados ameaçam partir sozinhos. "Não podemos permitir. Para ir a estes lugares são precisas pelo menos duas pessoas. Nós organizamos os passeios, e garantimos que eles se realizam com todas as condições de segurança."
Muitas das serras estão instáveis, há perigo de derrocadas, as chuvas podem fazer cair pedras ou transbordar as ribeiras. Mas "as pessoas não querem saber. E ficam zangadas", se as tentam demover.
No Atlantic Resort and SPA Carlos Saraiva (CS) Madeira, um hotel de cinco estrelas em cima do mar, os hóspedes também não querem abdicar das suas actividades de férias. "Tudo tem corrido com normalidade", diz Rui Feiteira, Assistente da Direcção do Hotel. "Mas há clientes apreensivos. Estão de férias e não querem abdicar de nada. Quase culpam o hotel".
No sábado, os hóspedes foram praticamente coagidos a não sair, o que causou alguma confusão. "Estavam os clientes todos, em simultâneo, na sala de jantar, no lobby, ou ao pequeno almoço. É uma situação que nunca acontece", conta Rui. Por isso, fartaram-se, e, mal tiveram autorização para sair, foram ver os estragos, ignorando todos os conselhos em contrário. "No domingo, houve uma afluência fora do normal ao pequeno-almoço, logo às primeiras horas da manhã, porque as pessoas saíram todas para o centro do Funchal, para verem o que tinha acontecido".
Num terraço avançado sobre o mar, a seguir à fila de palmeiras, em frente ao salão todo em vidro, um casal de holandeses está sentado em pura contemplação. São René e Marianne van Digh, de 52 e 50 anos, ela enfermeira, ele reformado. No sábado à tarde, estavam calmamente a ver televisão. Viram as notícias das cheias, mas não reagiram. De súbito, Marianne gritou: "Ei! Mas isto é aqui!" Reconheceu os lugares, da ilha que visitam há anos. No hotel, ninguém lhes disse nada.
"Comecei a ver o estado em que as coisas ficaram, e foi um choque". Mal puderam, saíram. Não até ao centro da cidade, mas observaram de longe. "Todas aquelas pedras nas ribeiras, era inacreditável", diz Marianne. Receberam telefonemas da família encorajando-os a regressar. "Mas ficámos. É curioso como, quando se vê este tipo de notícias pela televisão, tudo parece muito pior. Esta experiência serviu-nos também para aprender isso. Não é que as televisões mintam, mas ninguém imagina que aqui, no hotel, se está em perfeita segurança, sem dar por nada".
A maior parte dos hóspedes do CS Madeira gosta de caminhadas e da descoberta da Natureza. É para isso que vem à Madeira. Se não se pode ir para os montes, mas há uma catástrofe em curso, pois vai-se ver a catástrofe. Ser turista é isso mesmo: ver, mas não se envolver.

