Peões de Almada insistem em reclamar o seu espaço numa zona pedonal cheia de carros

24.01.2009 - 09:22
Almada voltou ontem a observar uma marcha, a segunda no espaço de uma semana, mas desta vez a passo de "caracol", cujo objectivo era o mesmo: alertar peões e automobilistas para o facto de a Praça MFA ser agora uma zona pedonal. Após os incidentes na sexta-feira da semana passada, de que resultaram ferimentos em três pessoas em consequência de intervenção policial, a polícia voltou a intervir, apupada pelos moradores, mas ontem não houve confrontos.
A partir das 16h00, populares e membros da organização GAIA (Grupo de Acção e Intervenção Ambiental) foram-se juntando, timidamente, naquela praça. Foram prestadas informações a automobilistas e peões. Tudo pacífico, embora sob o olhar atento dos polícias, em muito menor número do que na semana passada. Alguns automobilistas que invadiam aquela área, explicavam-se: "Existem diversas escolas nesta zona da cidade, pelo que é normal passarmos aqui de carro para ir buscar as crianças".
O movimento tem chamado a atenção para aquele espaço, defendendo que, "se os automóveis podem circular a qualquer hora e a qualquer velocidade, então os peões também têm o direito a circular a passo de caracol na sua zona".
A polícia chegou a intervir, quando um dos jovens desenhava com farinha o corpo de outro deitado no chão, impedindo assim que os carros pudessem passar. E o aparente atropelado foi retirado.
Para o GAIA, "Almada tem a zona pedonal com mais carros do mundo", afirmando querer "ocupar o espaço a que os peões têm direito". Os cidadãos criticam "a falta de fiscalização, a circulação de autocarros e táxis, cargas e descargas e as muitas autorizações concedidas pela autarquia".
O vereador do Trânsito da Câmara de Almada, José Gonçalves, disse ao PÚBLICO que pela manhã tivera uma reunião com a GAIA no sentido de "promover uma partilha de informação tendo em conta objectivos comuns". E explicou que concorda com as razões apresentadas pelos munícipes, mas que, apesar da criação daquela zona pedonal, "tratando-se de uma zona movimentada no centro da cidade, pautada pelo comércio e serviços, o trânsito não podia ser retirado imediatamente". Mas diz que a autarquia está a adoptar um período de adaptação cujo objectivo é "retirar totalmente o trânsito do local".
Para já, diz o vereador, a partir de agora a autarquia irá aumentar a fiscalização através da entidade criada para o efeito, a Ecalma. O limite de velocidade no local é de 10 km/hora, que José Gonçalves considera adequada para se articular com os peões.
Os conflitos
Sobre os incidentes da semana passada, Lanca Hostink, que diz ter sido uma das vítimas da carga policial, explica que se encontrava naquela zona com a filha menor, para sensibilizar a população" para a importância da zona pedonal, e que a carga policial deixou a sua filha "extremamente traumatizada".
Outra das testemunhas no local, Mário Silva, que "não estava a participar na manifestação, mas apenas por ali passava", explica que viu chegar ao local um corpo de intervenção com cerca de oito elementos que acabou por "empurrar algumas pessoas por estarem a impedir o trânsito, e apagavam fotografias das máquinas dos participantes". Outra das vítimas, Mar-
garida Oliveira, de 48 anos, afirmou à agência Lusa que, tal como Lanca, vai apresentar queixa contra a PSP de Almada. "Alguém vai ter que assumir responsabilidades", sublinhou, para depois afirmar que está em casa "cheia de dores e sem poder ir trabalhar" e que ainda hoje não entende porque foi "alvo de tamanha violência".

