Pai do menor morto pela GNR em Loures volta à prisão para ajudar a esclarecer morte do filho

19.08.2008 - 16:53 Por José Bento Amaro
Eram 13h30, hora de almoço, quando a campanhia do Estabelecimento Prisional de Alcoentre tocou. A porta abriu-se e um dos três homens que surgiram perante o guarda de serviço apresentou-se: Sandro Lourenço, evadido daquela cadeia desde Agosto de 2000 e que na semana passada, após dar uma identidade falsa, logrou enganar os juizes do Tribunal de Loures e sair em liberdade. Sandro entregou-se para ajudar a explicar as circunstâncias em que o filho, de 13 anos, morreu após perseguição e disparos efectuados pela GNR de Santo Antão do Tojal.
“O Sandro apresentou-se de manhã no escritório e, cerca do meio-dia e meio, comigo e o meu colega [Brito Ventura], foi para Alcoentre”, explicou hoje ao PÚBLICO o advogado Fernando Carvalhal. “A sua entrega será muito importante para a descoberta da verdade acerca da morte do filho”, adiantou ainda o defensor, lembrando que “houve uso excessivo da arma” e que se verificou, supostamente por parte da GNR, “omissão de auxílio ao menor atingido”.
A morte da criança, Paulo Salazar, de 13 anos, ocorreu no dia 11. O menor acompanhava o pai e um tio que, por sua vez, estariam a furtar cancelas de ferro próximo de Santo Antão do Tojal, Loures. O furto terá sido presenciado e a GNR alertada. Momentos depois os dois homens não terão respeitado a ordem de detennção e um deles, ao volante de uma carrinha, terá mesmo tentado atropelar um guarda. Foi este quem efectuou cinco disparos, um dos quais se haveria de revelar fatal para o menor. Pelo meio ficam depoimentos cointraditórios: a GNR fala na existência de uma pistola (descarregada) e de cartxos de caçadeira; os suspeitos negam ter efectuado qualquer tentativa para atingirem os guardas.
Os dois homens foram detidos e, no dia seguinte, presentes ao Tribunal de Loures. Sandro, com documentos falsos, afirma chamar-se José. O juiz, sem revelar a morte da criança, manda os dois homens em liberdade. Sandro com a obrigação de se apresentar semanalmente, enquanto ao irmão foi ordenado que se apresente de 15 em 15 dias no posto da GNR. Quando a polícia descobre que Sandro é, afinal, um foragido de Alcoentre, onde cumpria pena por diversos roubos no Algarve, já é tarde.
Entretanto o guarda que efectuou os disparos já está ao serviço, depois de ter metido baixa após o incidente. A GNR e a Inspecção Geral da Administração Interna estão a conduzir inquéritos para apurar em que circunstâncias foram efectuados os disparos.

