Ficou como uma das imagens de marca do protesto que abafou por completo o comício comunista de ontem em Coimbra. No meio dos manifestantes, uma jovem estudante universitária, trajada a rigor, empunhava uma esfregona com um improvisado cartaz colado no cabo: “Senhor Jerónimo, esta esfregona é para si!”
Enquanto durou o comício nas escadas monumentais, os mais de 100 estudantes não se calaram, cantando “Limpa, limpa camarada limpa!” e gritando “vandalismo”. Convocado horas antes através do Facebook, o evento “Protesto no comício da CDU” foi o corolário da reacção visceral de muitos habitantes e estudantes de Coimbra à pintura de slogans do PCP nas escadas monumentais da Universidade.
Até ao fim da manhã de quarta-feira, o mural da página do Facebook “Vergonha nas escadas monumentais” já tinha conseguido a adesão de mais de duas mil pessoas.
Os que compareceram no protesto foram acusados de estar a soldo de partidos. “Quanto é que te pagam para estares aqui?”, perguntava terça à noite um comunista a um dos manifestantes.
O comunicado da CDU/Coimbra, ontem, ainda antes da realização do comício em resposta à polémica já era a confirmação de que a candidatura se vira forçada à gestão de danos.
Terminava com uma acusação velada, insinuando o papel de outros partidos no protesto: “O empolamento dado a esta acção de propaganda da CDU só pode ser lido como uma campanha que se destina a atingir a intervenção política da CDU.”
Dos que se assumiram como porta-vozes da iniciativa, como o estudante Pedro Leitão, nenhum admitiu qualquer ligação partidária. Este dizia-se mesmo “anti-partidário”. E o mural no Facebook da “Vergonha nas escadas monumentais” não tinha qualquer referência partidária.
Mas uma das juventudes locais, a do CDS, colocara no seu site uma tomada de posição sobre o assunto. O título do texto era “Vandalismo nas escadas monumentais”. E a foto que o acompanha era exactamente a mesma que figurava no mural “Vergonha nas escadas monumentais” que agendara o protesto que coincidiu com o comício.
Luís Filipe Santos – da JP e candidato à Assembleia da República pelas listas do CDS – fora um dos que destacara o mural da Vergonha na sua página pessoal na rede social. À mesma hora em que esta fora criada. “Solidarizei-me com quem fez a página porque me identifiquei”, explicou ao PÚBLICO. Garantiu não ter tido nada que ver com a criação da página, tendo apenas “acompanhado” o assunto. E acrescenta que nem sequer foi ao protesto porque “poderiam depois querer ligar isso” ao CDS.
O presidente da Associação Académica de Coimbra e militante da JS, Eduardo Melo, assegurou também não ter estado presente no protesto. “Estava numa reunião da direcção [da AAC]”. Na sua opinião, o protesto nasceu de “uma série de movimento no Facebook sem qualquer agenda política”. E admitiu concordar com as razões do protesto. “A Associação sempre foi irreverente na sua forma de protestar, mas aquilo foi um acto de vandalismo”, afirmou.
Luís Filipe Santos assumiu também a sua “indignação contra o vandalismo”: “E se tem sido a direita a colocar ali uma frase?”, questionou depois de frisar que o espaço faz parte da zona da Universidade candidata a Património da Humanidade na UNESCO.
Quanto à JSD local, o PÚBLICO não conseguiu até agora contactar qualquer dos seus responsáveis.
Jerónimo de Sousa enviou-lhes um recado duro no seu abafado discurso pelas palavras de ordem dos manifestantes. “Ao longo da sua história, o PCP conheceu o silenciamento da comunicação, a tortura, a perseguição. Mas aqueles que o fizeram e que transportam até aos dias de hoje esse anátema que marcou a nossa história é importante que saibam: Não nos calarão!”
As conversas de café, nos estabelecimentos próximos das monumentais também não calaram o tema. Hoje de manhã, as pinturas ainda eram assunto nas esplanadas. O estudante Paulo Santos discutia o assunto com colegas ali. “Gostava de saber se o senhor Jerónimo de Sousa teria gostado que lhe tivessem pintado a parede da casa”, desafiava por entre uns goles de café. E um dos seus colegas rematou “ainda por cima, aquilo fica feio como tudo…”


