Reportagem

Homicídios em Montemor: "Quem imaginava que chegava a este ponto?"

29.11.2009 - 22:41 Por Graça Barbosa Ribeiro, Mariana Oliveira

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O irmão da vítima chega à casa que era desta O irmão da vítima chega à casa que era desta (Nelson Garrido)
São 17h de domingo e Mário Pessoa, que aguarda à porta da GNR de Montemor-o-Velho, acaba de depor. De contar à PJ como, de manhã, correu a salvar a nora das agressões do seu próprio filho, também chamado Mário, e acabou por a conduzir ali, ao edifício da GNR, onde uma hora depois ela seria morta a tiro de caçadeira, dentro de uma ambulância, com a filha de cinco anos nos braços. O atirador, que a seguir terá morto um elemento da GNR e ferido outro, é seu filho.

A história é longa. Tão longa, que neste domingo de manhã os sogros acudiram como quem cumpre um ritual, quando a nora, Manuela, de 35 anos, lhes telefonou; tão longa que os vizinhos nem sequer abriram a janela “apesar de terem sentido pancadas e portas a bater e carros a chegar e a arrancar”, ainda mal o sol nascera na pacata localidade de Porto Luzio, Carapinheira.

“O meu marido disse: ‘Raios! Aconteceu alguma coisa’”, relata uma vizinha. Depois baixa os olhos inchados de choro: “Se ele tivesse vindo à rua ver o que era talvez ela estivesse viva e o meu marido morto. A gente sabe lá.” Faz-se silêncio no grupo de mulheres. Não querem “dar o nome”. “Hoje ele está preso, amanhã já não”, justifica uma.

Todas sabiam que Manuela, que vivia separada do marido há cerca de um ano, lhe continuava a abrir a porta da casa que herdou dos pais e onde se refugiou com os filhos de ambos, um rapaz de 14 anos e uma menina de de 5. Acenam que sim, que também sabiam que ele a espancava; e todas sublinham o mesmo: “Mas que chegava a este ponto – quem é que ia imaginar?”

A irmã de Manuela, Teresa, está destroçada. Mas quer falar, diz, “para salvar outras”: “Ela sabia! Dizia muitas vezes que ele ia acabar por matá-la. Abria-lhe a porta porque tinha medo dele; e tinha medo dele porque neste país, com estas autoridades, ninguém ajuda, ninguém faz nada até acontecer uma tragédia.”

Neste domingo dizia-se que Mário, de 41 anos, dono de um bar da Carapinheira e conhecido por andar ao murro por dá cá aquela palha, já foi identificado várias vezes pela GNR, mas as autoridades não confirmaram se tem cadastro. Na terra, muitos tinham medo dele e todos parecem saber que ele jurava que mataria Manuela se algum dia ela apresentasse queixa. Neste domingo, matou.

Não parecia um dia especial. Não sabe a que horas, Mário Pessoa recebeu o telefonema aflito da nora. E ele e a mulher vestiram qualquer coisa sobre os pijamas e foram a Porto Luzio. O neto, de 14 anos, tinha fugido para os pinhais. A nora estava na rua, sentada na relva, com a filha de cinco anos ao colo. Mário estava na cama: “Gritei-lhe que era a minha vergonha”, contou o pai. O homem ergueu-se, na cama, e Mário Pessoa perdeu a cabeça: “Levantas-me a mão?! Pois sou eu que vou apresentar queixa à GNR!”

Seguiram para Montemor. Manuela estava ferida e assustada, jurava que o marido ia a caminho para os matar. Não foi logo (antes, passou por casa dos pais, agarrou nas armas e incendiou os tapetes). Ainda assim a queixa nem chegou a ser formalizada: face a tanto nervosismo, o militar chamou uma ambulância para levar Manuela ao Gabinete Médico-Legal da Figueira e pediu a uma patrulha para a escoltar. Mas os tripulantes ainda não tinham quem os protegesse quando, a meio caminho, o carro de Mário se atravessou à frente da ambulância.

O condutor inverteu a marcha, de volta à GNR. Mal estacionou, sob a ameaça da arma, um dos bombeiros foi obrigado a abrir a porta da ambulância e viu Mário disparar. Manuela teve morte imediata; a filha foi ferida. Nesse momento, já eram várias as patrulhas no local. Manietaram Mário, para tirar-lhe a caçadeira. E já o tinham junto à cela quando ele sacou de um revólver e baleou dois militares, um dos quais morreu. Nesta segunda-feira será presente a tribunal.

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