Governo da Madeira com versões desencontradas sobre o número de mortos

24.02.2010 - 08:58 Por Tolentino de Nóbrega
O Governo Regional mantém em 42 o número de mortos anunciado na manhã de segunda-feira, mesmo depois de terem sido encontrados mais corpos sem vida nos dois últimos dias e de testemunhas oculares referirem que vários cadáveres foram retirados de um parque de estacionamento por polícias e transportados numa viatura da PSP.
Apesar de terem sido encontrados ontem à tarde, pelo menos, mais quatro cadáveres, a porta-voz do Governo Regional garantiu que o número de mortos se mantém estacionário há dois dias. "Só o número de desaparecidos é que tem sido um pouco flutuante", declarou a secretária regional dos Transportes e Turismo, Conceição Estudante, referindo-se à nova baixa de 32 para 18 desaparecidos, muito inferior aos 250 inicialmente referenciados.
O próprio presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, ontem à noite, após a realização dos funerais de nove vítimas, revelou à TVI que se encontravam nas morgues 37 cadáveres, número que, adicionado aos nove corpos ontem sepultados, perfaz aquele total de 46 vítimas.
Outras informações, também contraditórias, nomeadamente veiculadas por testemunhas oculares, põem em causa os 42 declarados oficialmente. E fazem avolumar as suspeitas de que estará a ser ocultada a dimensão da tragédia, para não afectar o turismo, como aquando da maré negra no Porto Santo, em Dezembro de 1989, em que foram desencadeados meios de contra-informação e Jardim acusou os jornalistas de estarem a prejudicar a Madeira com a divulgação de notícias sobre o acidente ecológico provocado pelo derrame de crude que atingiu a praia.
No último briefing com os jornalistas, ontem à tarde, Estudante justificou as disparidades sobre o número de vítimas alegando que tinham sido reportados e contabilizados corpos antes da sua trasladação. Ou seja, o número oficial de mortos (42) inclui os cadáveres entrados nas últimas horas no posto de socorro marítimo do aeroporto e na morgue do hospital - cujo acesso está vedado aos jornalistas -, mas que antes haviam sido reportados pela Protecção Civil. "Admito que haja confusão, mas garanto não há mais de 42 mortos", disse, deixando ainda escapar que, legalmente, "os óbitos só contam quanto validados pelo Ministério Público".
Ontem à tarde foram encontrados dois mortos na Ribeira Brava, junto do campo de futebol da Serra de Água, e outros dois na Quinta dos Reis, na descida das Barbosas (Monte), na capital madeirense. No entanto, também neste caso, o presidente da Câmara do Funchal, em conferência de imprensa dada minutos antes, garantiu que não tinha sido localizado qualquer corpo sem vida nas últimas 24 horas: "Mantém-se a situação reportada ontem", frisou Miguel Albuquerque, assegurando que "em nenhuma das caves até agora inspeccionadas nos três centros comerciais foi encontrado qualquer corpo", insistiu o autarca para desmentir referências à retirada de pessoas mortas no parque estacionamento do Anadia.
O administrador deste centro comercial do Funchal, António Henriques, corrobora esta versão, mas uma testemunha ocular, Tatiana Abreu, disse à Lusa ter visto, na manhã de segunda-feira, seis corpos transportados por polícias e que foram depositados numa viatura da PSP de caixa fechada. "Os cadáveres vinham embrulhados em plástico branco ou lençóis, mas enlameados", explicou Tatiana Abreu, adiantando que viu a situação de uma varanda situada num prédio de onde é visível o Anadia Shopping. Também uma fonte policial admitiu segunda-feira a possibilidade de existirem 17 corpos na cave.
O Ministério Público anunciou ontem que concentrou num único inquérito judicial as consequências do temporal, para "desburocratizar" os procedimentos das autópsias e avaliar as responsabilidades do ordenamento do território. O procurador admitiu que alguns casos de "ordenamento mal feito" possam ser responsabilizados pelo agravamento das consequências da intempérie. Instado pelos jornalistas a comentar estas declarações do delegado do MP, o presidente do governo madeirense ripostou: "Não sei quem seja." E questionado sobre o programa da visita do Presidente da República à Madeira, agendada para hoje, respondeu: "Não sou do protocolo do Estado."

