Feira do Livro: Germano Silva e Nuno Canavez querem uma Montmartre portuense nos roteiros turísticos

30.05.2008 - 15:51 Por Lusa
O livreiro Nuno Canavez e o escritor Germano Silva defenderam hoje a requalificação da Rua dos Mártires da Liberdade, no centro do Porto e a sua "transformação" numa espécie de Montmartre portuense.
Para isso, o livreiro e o escritor que são os homenageados deste ano da Feira do Livro do Porto, querem o aproveitamento da concentração de comércio especializado em antiguidades naquela zona, para potenciar a imagem nacional e internacional do Porto.
"Isto [Mártires da Liberdade] tornou-se numa espécie de pequeno Montmartre - a zona parisiense do comércio de antiguidades -cá do sítio. É pena que a câmara não tenha sensibilidade para ver (e aproveitar) isto", sublinharam.
Nas imediações desta rua do centro do Porto - que fica também próxima de Miguel Bombarda, a zona das galerias mais conhecida como "Soho" portuense - há uma grande concentração de comércio especializado na área das antiguidades, nomeadamente livrarias, alfarrabistas, restauradores de antiguidades, casas de antiguidades e encadernadores.
Em na "sua" Livraria Académica, situada na zona, entre milhares de livros e muitas centenas de preciosidades bibliófilas, Nuno Canavez sublinhou que não quer ajudas financeiras da câmara para os comerciantes da zona.
"Basta que arranjem uns stands bonitos e tragam para aqui a feira de moedas, selos e postais que se faz aos sábados na Praça de D. João I. Com alguma animação, teatro de rua e música ao vivo, a zona ganhará vida e poder de atracção e entrará nos roteiros turísticos, para bem de toda a cidade", afirma.
"Quando aqui cheguei (em 1948), muito novo e pouco dado à leitura, o fundador desta livraria, Guedes da Silva, soube transmitir-me desde o primeiro dia o seu imenso amor pelos livros. Ensinou-me a apreciá-los, a manuseá-los e dizia-me até que se deve cheirar os livros, porque todos eles têm um odor distinto. E é verdade!", frisa Nuno Canavez.
Destaca a importância do antigo patrão, a quem adquiriu a livraria nos anos 60, na dignificação do livro antigo, porque - sublinha - "naquele tempo (meados do século XX) vender livros usados era uma actividade marginalizada, não era de bom-tom".
No meio de tantos livros raros, Nuno Canavez acha que vive num "mundo encantador e muito compensador, pelo convívio com os clientes. "Passaram por esta livraria Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoais e muitos outros, a caminho da Renascença Portuguesa, fundada também em 1912 nesta rua, um pouco mais acima. Esta casa está carregada de história", diz.
"O Porto sempre teve tradição de política cultural"
O jornalista Germano Silva, que fez quase toda a carreira profissional no Jornal de Notícias (de que foi chefe de Redacção) e do estudo e divulgação da história do Porto uma missão, sustentou, que "o Porto sempre teve tradição de política cultural".
"Já no século XIV a câmara contratava no estrangeiro professores de Latim, Grego, Matemática, Música, Desenho e dava bolsas de estudos a estudantes portuenses para irem para o estrangeiro", disse.
Crítico, afirma que "agora faz-se umas corridas de carros e aviões, coisas que duram dois dias e passam, de que nada fica a não ser mais uns votos para a próxima eleição".
O jornalista realça também que aflui, à zona dos Mártires da Liberdade, gente de todo o país e muitos estrangeiros à procura de gravuras, folhetos e livros.
Germano Silva recorda que o seu contacto com os livros nasceu a partir de um alfarrabista "manhoso" que havia na Rua da Torrinha, que alugava livros a 10 tostões por semana. "Comecei com o Emílio Salgari (das aventuras do Sandokan, entre outras) todo, Júlio Verne e por aí adiante" diz. O interesse pela história do Porto começou, quando iniciou uma coluna no JN sobre a história da cidade, que mantém.
Ao frequentar "os bons alfarrabistas que foram aparecendo, homens cultos que tratavam o livro com respeito não um produto qualquer, como acontecia com muitos", apaixonou-se também pelo livro antigo.

