Cai a noite, a Baixa da cidade de Faro tranca as portas. O centro histórico da capital algarvia está entregue ao abandono. “Uma cidade assombrada”, diz Jorge Gaspar, proprietário do Café do Coreto, situado junto à doca/marina. “Tenho licença para estar aberto até à meia-noite, mas fecho às 22h00.” “Para quê estar de porta aberta, se há noites que não vendo uma bica?” A falta de clientes no Inverno e a insegurança levam o dono do estabelecimento, com 16 empregados, a soltar um lamento: “Sinto um nó na garganta, a ver o que está a acontecer.”
O filho do dono da pastelaria Gardy, José Dias, acrescenta: “À noite, só ando eu aqui, na rua, a passear os meus dois cães – por vezes, encontro mais quatro ou cinco pessoas.” A capital algarvia, apesar do ar cosmopolita que exibe nos meses de Verão, ainda cultiva o espírito de vizinhança, como se fosse uma aldeia em ponto grande. O aumento da criminalidade, observa José Dias – que viveu 11 anos em Inglaterra – “contribui para o estado em que as coisas estão. A Rua de Santo António [onde se situa a Gardy, casa histórica do centro da cidade] está morta”. Apontando para o fim da uma rua lateral, desabafa: “A perfumaria Ellora, depois de dois assaltos quase seguidos – limparam tudo – não teve outro remédio e encerrou.”
Durante o dia, pelas ruelas da Cidade Velha, o núcleo mais antigo de Faro, conhecido como “vila-adentro”, passeiam magotes de turistas em busca de retalhos de história perdidos no tempo. Na Rua de Santo António, à hora do almoço, sente-se o pulsar do coração de uma cidade que foi Capital Nacional da Cultura em 2005 – mexeu com a cidade, mas foi sol de pouca dura. Funcionários públicos e outros empregados de serviços palmilham a calçada, atirando olhares de soslaio às montras, a anunciar saldos. Até há uma dezena de anos ainda era esta a artéria que ditava a moda na região. Agora, as lojas estão vazias. “Perdeu-se o efeito novidade”, diz José Dias. E aponta o dedo aos próprios comerciantes: “Dois empresários são donos de dez lojas – é certo que têm muitas marcas, mas como é que pode existir competitividade?”
A abertura do centro comercial Fórum Algarve, em 2001, oferecendo parqueamento automóvel, acelerou o processo da desertificação da tradicional zona comercial, que já se vinha sentindo há alguns anos. “Num dia, antes do Natal, fiz de caixa 270 euros, e só de electricidade pago 1250 euros por mês”, afirma o empresário Jorge Gaspar. E estabelece comparação com outras povoações: “Vou a Olhão, Quarteira e outras cidades à beira-mar, vejo pessoas. Faro virou as costas à ria Formosa, afundou-se.” O Café do Coreto tem uma localização privilegiada, “mas só de Verão é que trabalha mais ou menos, para pagar as despesas no Inverno”, comenta Jorge Gaspar.
E agora que fazer para devolver vida a uma cidade que ficou a olhar para o umbigo? A câmara municipal procura um promotor turístico para construir um hotel de charme entre muralhas, no lugar do edifício do antigo edifício do Magistério Primário, dando um primeiro passo para o processo de revitalização da zona histórica.
De costas para universidade?
A Universidade do Algarve (UAlg), enquanto centro de conhecimento e competências, é a instituição de quem a comunidade espera propostas imaginativas que sacudam as estruturas do poder. Partindo deste princípio, a Tertúlia Farense, na sua última reunião, convidou o reitor da UAlg, João Guerreiro, e questionou se a cidade e a universidade não estão de costas voltadas.
O vice-presidente da câmara, Rogério Bacalhau, reconhece o “estado deplorável” em que se encontra o centro histórico e pensa que poderá haver “alguns interessados” na construção daquele hotel. O reitor da UAlg aponta outra solução, propondo que a “vila-adentro” seja repovoada com “estudantes ligados às artes”. O autarca aceita a sugestão e promete “celeridade” na aprovação de projectos para revitalizar a zona histórica, sublinhando porém a necessidade de as propostas “respeitarem o Plano Director Municipal”.


