Deus, redes e jornais no Senhor de Matosinhos

03.02.2012 - 15:23 Por Jorge Marmelo

  • Votar 
  •  | 
  •  5 votos 
"Ouvimos mais as princesas das revistas ou a palavra de Deus?" "Ouvimos mais as princesas das revistas ou a palavra de Deus?"  (Fernando Veludo/nFactos)
O pároco Manuel Mendes utiliza elementos provocatórios para levar os mais novos a reflectir na palavra sagrada.

Quem, por estes dias, visite a barroca Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, não deixará de reparar numa bela coluna engalanada não só com os habituais retábulos dourados, mas também com uma espécie de escaparate (ou estendal) de jornais e revistas.

Anunciam-se ali, entre outras coisas, vinganças da realeza monegasca, assaltos a ourivesarias ou as últimas incidências do muito particular mundo futebolístico. Na semana anterior, e no mesmo sítio, havia uma rede de pesca decorada com símbolos de redes sociais e imagens de telemóveis e ecrãs de plasma. E, antes disso, uma grande relógio parado nas quatro horas. Confuso?

Alguns visitantes e frequentadores do templo desenhado por Nicolau Nasoni não ficaram menos perplexos e o caso já chegou às redes sociais. Até o vereador da Cultura da Câmara de Matosinhos, Fernando Rocha, manifestou esta semana, no Facebook, estranheza e curiosidade pelos novos adereços do imóvel classificado como de interesse público. "Até parecia mentira", comentou.

O pároco de Matosinhos, Manuel Mendes, esclarece o mistério. Trata-se, afinal, de uma forma de "quebrar a rotina" da liturgia, confrontando os paroquianos mais jovens com um elemento "dinâmico" que os leve a reflectir na palavra sagrada.

"Já há muito tempo que temos a preocupação de ter um elemento diferente para sublinhar a ideia mais importante da liturgia. Nas últimas três semanas, desde o advento, pensamos em fazer alguma coisa para a missa das onze horas de domingo, que é a missa das crianças", explica o pároco. "A ideia é ajudá-los a ler o evangelho", concretiza.

Assim, os jornais e revistas que podem ser vistos no templo durante esta semana pretendem confrontar os paroquianos mais jovens com uma questão concreta: "Qual é a palavra que ouvimos mais, a que damos mais atenção? As palavras destas princesas das revistas ou a palavra de Deus?"

Do mesmo modo, a rede de pesca com símbolos dos meios de comunicação contemporâneos pretendia, por um lado, recordar que os apóstolos abandonaram as redes de pesca para seguir Jesus Cristo e, por outro, perguntar "que redes é que hoje nos distraem e impedem de seguir a palavra sagrada" - como se, de um lado, estivessem as verdades das escrituras e, do outro, os instrumentos que servem para desviar as atenções e afastar os fiéis dos ensinamentos do evangelho.

O caso do relógio era mais simples: uma referência à passagem bíblica que diz que "eram quatro horas quando Jesus Cristo passou e chamou". "A intenção era passar a ideia de que a hora de ouvir a chamada de Cristo é agora", explica o padre Manuel Mendes.

O pároco faz mesmo questão de que os ícones pensados para a missa das crianças fiquem na igreja durante o resto da semana, chamando a atenção dos outros fiéis. "Gostava que sentissem estranheza e se questionassem. Eu tento explicar o significado daquelas coisas", diz Manuel Mendes, reconhecendo que os elementos estranhos ao templo possam provocar perplexidade aos visitantes ocasionais.

O pároco nem sequer rejeita a ideia de os jornais ou as redes serem vistos como uma provocação. "É uma provocação, sim, no sentido que a palavra tem de mais original, que é chamar a atenção", comenta. Paradoxalmente, a provocação acabou por ter eco nas mesmas redes sociais que, como diabinhos distractivos, apartam os fiéis da palavra do Senhor.

Estatísticas

  • 3819 leitores
  • 3 comentários

URL desta Notícia

http://publico.pt/1532136

Comentário + votado

Instalações religiosas

Olha o Banksy do Vaticano!

Só Francisco

04.02.2012 13:55

X

Mais em Local (10 de 16 artigos)

Câmara de Lisboa activa plano de contingência contra o frio